O Brasil já possui conhecimento científico, tecnologias e resultados de campo suficientes para ampliar significativamente a adoção do Manejo Integrado de Pragas na soja. Depois de décadas de pesquisa, o desafio para os próximos anos já não está em comprovar se o MIP funciona. Está em criar caminhos para que uma estratégia validada cientificamente e capaz de gerar ganhos econômicos e ambientais seja incorporada à rotina de um número cada vez maior de produtores.

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Os resultados acumulados ao longo de mais de uma década são consistentes. Dados de safras agrícolas conduzidas no Paraná mostram que produtores que adotaram o MIP-Soja reduziram, em média, 52,8% o número de aplicações de inseticidas e postergaram em aproximadamente 26 dias a primeira aplicação, mantendo a produtividade e a rentabilidade das lavouras.

Diante dessas evidências, uma pergunta precisa orientar o debate sobre o futuro do MIP-Soja: se os resultados são conhecidos e comprovados, por que sua adoção ainda permanece muito abaixo do potencial? A resposta indica que o principal desafio não é técnico.

Unidades de Referência Técnica

Ao longo dos últimos anos, foram implantadas inúmeras Unidades de Referência Técnica (URTs), realizados dias de campo, produzidos materiais técnicos e publicados estudos que demonstram os benefícios do sistema. As barreiras parecem estar em outros fatores, por exemplo: na dependência excessiva de tecnologias isoladas, na escassez de mão de obra qualificada para o monitoramento das lavouras, na percepção de risco por parte dos produtores, na complexidade operacional da tomada de decisão baseada em monitoramento e até mesmo no modelo tradicional de comercialização de insumos.

Farelo de soja dispara e sustenta preços no mercado. Demanda global fortalece cotações da soja, enquanto preços do milho variam.
Foto: Aprosoja – MT

Essa reflexão ganhou força durante a reunião anual da cadeia da soja deste ano, realizada em Londrina (PR). Ela reuniu pesquisadores, representantes da indústria, consultores, produtores e lideranças do agronegócio. Mais do que olhar para os resultados já alcançados, o debate colocou uma questão essencial para o futuro: como transformar o conhecimento acumulado sobre o MIP em uma prática amplamente adotada no campo?

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Uma das conclusões mais importantes é que nenhuma tecnologia isolada será capaz de sustentar o manejo de pragas no longo prazo. Tecnologias como a soja Bt trouxeram ganhos significativos para o agricultor, mas não substituem o MIP. Pelo contrário. Os dados mostram que a combinação entre cultivares Bt e o Manejo Integrado de Pragas pode produzir resultados ainda melhores. Portanto, reduzindo aplicações e custos e aumentando a sustentabilidade do sistema produtivo.

Relação entre os produtos biológicos e químicos

O mesmo raciocínio deve orientar a relação entre os produtos biológicos e químicos. O futuro da proteção de plantas não deve ser construído a partir da escolha entre uma tecnologia ou outra. Mas da capacidade de integrá-las de forma inteligente. Cada ferramenta precisa ser utilizada no momento adequado, de acordo com o monitoramento da lavoura, o nível de infestação e critérios técnicos de tomada de decisão.

É justamente essa visão sistêmica que está na essência do Manejo Integrado de Pragas. Monitoramento, controle biológico, tecnologias químicas, genética, conservação de inimigos naturais e outras estratégias não devem atuar de forma isolada, mas como partes de um mesmo sistema de produção.

Integração

Essa integração será cada vez mais necessária. A resistência das pragas é um dos grandes desafios da agricultura e tende a se intensificar quando existe dependência excessiva de uma única ferramenta. Preservar a eficiência das tecnologias disponíveis ao produtor exige diversidade de estratégias e decisões baseadas em conhecimento. Foi com essa visão que criamos, em 2019, o Programa MipExperience, iniciativa que aproxima pesquisa, extensão, indústria, varejo e produtores rurais em torno das Boas Práticas Agrícolas e do Manejo Integrado de Pragas.

Ao longo dos últimos anos, construímos uma jornada baseada em capacitação técnica, validação no campo, transferência de conhecimento e certificação reconhecida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, demonstrando que os benefícios do MIP vão além do manejo fitossanitário e alcançam a segurança dos alimentos, a redução de resíduos, a conservação da biodiversidade, a agricultura regenerativa e a conexão entre campo, mercado e consumidor.

A experiência acumulada nessa trajetória e o desafio de ampliar a adoção do MIP para uma cultura da dimensão da soja abriram caminho para um novo passo. Nesse contexto, a Embrapa Soja e a Promip formalizaram a assinatura de uma Carta de Intenções para a construção colaborativa da Rota Soja + Sustentável. A iniciativa nasce com um propósito claro. Contribuir para transformar o MIP-Soja, de conhecimento amplamente validado pela pesquisa, em prática cada vez mais adotada pelos produtores brasileiros.

Duas frentes

O caminho passa, inicialmente, por duas grandes frentes. A primeira é a capacitação de produtores, técnicos e consultores, com treinamentos estruturados a partir das recomendações da Embrapa Soja e a disseminação das Boas Práticas Agrícolas. A segunda é a aplicação desse conhecimento em condições reais de produção, com a implantação de Unidades de Referência Técnica em diferentes regiões produtoras do país, a coleta de indicadores técnicos, econômicos e ambientais e a demonstração dos resultados alcançados nas lavouras.

A perspectiva é construir, progressivamente, uma rede de aprendizagem e validação do MIP-Soja, capaz de conectar ciência, assistência técnica e experiência prática dos produtores. Mas ampliar a adoção do MIP não será responsabilidade de uma única empresa ou instituição. Essa mudança exigirá a participação conjunta da pesquisa, da assistência técnica, dos produtores, da indústria, das instituições financeiras, do varejo e do mercado consumidor.

O Brasil já possui conhecimento científico, experiência acumulada e tecnologias para avançar. O futuro do MIP-Soja dependerá da nossa capacidade de transformar todo esse conhecimento em decisão no campo.

Marcelo Poletti

Marcelo Poletti é engenheiro agrônomo, doutor em Entomologia pela Esalq/USP e CEO da Promip, empresa brasileira de biológicos para controle de pragas agrícolas.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente a opinião do Agro em Campo e de seus editores.