Com clones, leilões milionários e alta demanda, Donna simboliza a força da genética bovina brasileira
Entenda o “combo genético” que faz uma vaca valer mais que imóveis de luxo. (Foto: Reprodução/Instagram)

Meses depois de arrematar 25% da vaca mais cara do mundo, o cantor Murilo Huff foi até Uberaba, no Triângulo Mineiro, para conhecer pessoalmente a Donna FIV CIAV, que vive na Fazenda Mata Velha. O encontro foi filmado, publicado nas redes sociais da empresa do cantor, a Nelore Huff, e rapidamente viralizou. “É um fenômeno, não preciso falar muita coisa. Os números não mentem, eles falam por si só”, disse Huff, ao aparecer ao lado do animal.

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Mas o que exatamente faz de uma vaca um investimento de R$ 54 milhões? A resposta não está no leite nem na carne. Está na genética.

De R$ 700 mil a R$ 54 milhões: a trajetória que o mercado acompanhou

A Fazenda Mata Velha comprou 50% de Donna há cerca de quatro anos, por R$ 700.000. Naquele momento, o animal já chamava atenção por ser filha de Parla FIV AJJ, matriz bastante conhecida entre os criadores de Nelore. Poucos anos depois, aquele investimento inicial se transformou em algo muito maior.

Avaliada em R$ 54 milhões, Donna representa o auge da genética Nelore e um mercado que cresce no Brasil
(Foto: Reprodução/Instagram)

Em novembro de 2025, os grupos Traia Veia e Nelore Huff arremataram 25% do pacote genético de Donna no Leilão Cataratas Collection, em Foz do Iguaçu, consolidando a avaliação de R$ 54 milhões para o animal. Os outros 75% pertencem à Mata Velha, à Casa Branca e ao investidor Lucas Moura.

O valor dobrou o da recordista anterior. O montante é o dobro da antiga recordista, Carina, avaliada em cerca de R$ 24 milhões. E antes dela, em 2023, foi a Viatina-19 que havia entrado para o Guinness com avaliação de R$ 21 milhões. O Brasil, portanto, quebrou o próprio recorde mais de uma vez.

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Por que o Brasil domina esse mercado?

Originários da Índia, os primeiros zebuínos Nelore chegaram ao Brasil no fim do século XIX, onde encontraram condições ideais para ganhar escala produtiva. Hoje, cerca de 85% do rebanho de corte nacional é da raça, de acordo com a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil.

Essa concentração criou um mercado próprio, com leilões, rankings nacionais, julgamentos em exposições e um sistema de avaliação sofisticado que define o valor de cada exemplar. Fernando Barros, gerente da Fazenda Mata Velha, resume bem o que Donna representa dentro dessa estrutura. “Não se trata apenas de uma matriz sofisticada. Temos uma doadora capaz de repetir resultado, de transmitir padrão, fertilidade, precocidade e correção racial em escala. É uma genética única na história”, afirma.

Os pais de Donna reforçam esse pedigree: a mãe foi duas vezes Grande Campeã da ExpoZebu, em Uberaba, em 2009 e 2010; o pai, o touro Big Ben da Santa Nice, foi Grande Campeão Nacional na Expoinel 1999 e na ExpoZebu 2000. No universo da pecuária de elite, linhagem é tudo. Ela atesta uma cronologia de resultados que o mercado acompanha com atenção e transforma em cifras.

O “combo genético” que justifica o investimento

O valor de R$ 54 milhões não está concentrado em um único animal. Está em algo que os criadores chamam de “combo genético”. Donna conta com um diferencial raro: três clones, que produzem continuamente material genético para reprodução.

Um de seus clones, a TM2, apelidada de Donninha, faz o papel de companheira, junto com Alessandra, outra doadora valiosa para o grupo. As três ficam em uma área reservada na fazenda, sempre juntas, sob supervisão de uma equipe de segurança que as vigia 24 horas por dia.

Os números da operação impressionam. As prenhezes de Donna custam de R$ 600.000 a R$ 700.000. Os pacotes de 100 oócitos ficam na casa de R$ 3 milhões. Cada filhote custa de R$ 700.000 a R$ 1 milhão, mas alguns já foram negociados por um valor cinco vezes maior. O gerente da fazenda observa que, por se tratar de uma genética tão rentável, em muitos casos é melhor comprar do que vender, dado o retorno que os indivíduos podem gerar.

A rotina de uma atleta de alto rendimento

Apesar de todo o valor, o manejo de Donna é mais individualizado do que o do restante dos animais da propriedade, mas sem extravagâncias. Fernando Barros compara a rotina de cuidados com a de um atleta de alto rendimento.

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Todas as manhãs, a equipe leva o trio ao lavador, onde as vacas recebem banho, escovação e hidratação de chifres e orelhas. Depois, elas descansam, seguem para o piquete ao lado, onde passam boa parte do dia soltas com sol e sombra, antes de retornarem à baia no fim da tarde. A dieta controlada consiste em pastagem natural, silagem, ração balanceada e feno, em quantidades ajustadas por um nutricionista.

A aspiração dos ovários ocorre mensalmente. Depois da coleta, os oócitos seguem para fertilização in vitro em laboratório, e os embriões resultantes são transferidos para receptoras, as chamadas “barrigas de aluguel”. Apenas dois veterinários têm autorização para fazer esse procedimento em Donna e seus clones.

Tudo isso, segundo Barros, tem efeito direto sobre a produtividade: quanto mais o animal está acostumado à rotina, mais estável é o número de oócitos obtidos nas aspirações. Fica claro: ciência e manejo caminham juntos.