Resumo da notícia
- O Grupo Fex Agro, com R$ 76,9 milhões em dívidas, entrou na Justiça para suspender cobranças por 60 dias, alegando aumento inesperado dos juros e crise no setor do agronegócio.
- A maior parte da dívida é quirografária, apesar de haver garantia fiduciária nas operações, e os principais credores são CCAB Agro, Caixa Econômica e Bradesco.
- A ação foi protocolada por quatro empresas do grupo na 3ª Vara Cível de Primavera do Leste, que também planejam pedido formal de recuperação judicial.
O Grupo Fex Agro, revenda de insumos agrícolas sediada em Primavera do Leste (MT), recorreu à Justiça em 9 de setembro de 2026 para tentar suspender cobranças por 60 dias. A empresa e três companhias ligadas a ela reúnem R$ 76,9 milhões em dívidas relacionadas ao caso. Até 10 de setembro, a 3ª Vara Cível da Comarca de Primavera do Leste ainda não havia analisado o pedido.

A lista de credores. documento juntado aos autos, datado de 8 de setembro, totaliza R$ 76.884.191,59 distribuídos em 208 lançamentos de 37 credores. Todos os créditos aparecem como quirografários, ou seja, sem garantia real, embora as demonstrações financeiras auditadas do grupo apontem cessão fiduciária de recebíveis como garantia principal dos empréstimos. Os autos não explicam essa divergência.
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Entre os credores, a CCAB Agro lidera com R$ 9.768.254,00 distribuídos em 55 notas fiscais. A Caixa Econômica Federal aparece em seguida, com R$ 8.752.899,96 em três lançamentos, e o Bradesco soma R$ 7.340.465,06 em cinco notas. Do total de lançamentos, 23 estão registrados em dólar e pertencem a um único credor.
Por que o grupo entrou com a ação agora
A petição atribui cerca de 70% da dívida a contratos firmados quando a curva de juros projetava um CDI bem abaixo do que se realizou depois. A Selic chegou a 15% ao ano em junho de 2025, encarecendo drasticamente o custo do crédito contratado pelo grupo. A auditoria independente já havia identificado esse movimento sem qualquer ressalva: o custo financeiro da dívida saltou de R$ 6,9 milhões em 2024 para R$ 11,1 milhões em 2025.
O grupo também aponta o contágio do setor como fator agravante. A petição cita um levantamento da Serasa Experian que contabilizou 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro em 2025. Segundo a empresa, essa onda de casos reprecificou o risco do setor e restringiu o acesso da Fex Agro a novas linhas de crédito.
Quem assina o pedido
Quatro empresas protocolaram a ação conjuntamente na 3ª Vara Cível de Primavera do Leste:
- Fex Agro Comercial Ltda. (CNPJ 15.204.808/0001-68) — trading de insumos e grãos
- PBP Participações e Investimentos Ltda. (CNPJ 21.430.920/0001-10) — holding garantidora de parte das operações financeiras
- Santa Lúcia Investimentos e Participações S.A. (CNPJ 17.952.167/0001-55) — holding garantidora de parte das operações financeiras
- Vincere Soluções Indústria e Comércio de Fertilizantes Ltda. (CNPJ 28.212.837/0001-13)
Um dia antes do protocolo, o grupo já havia aberto uma reclamação pré-processual no centro de mediação do tribunal. A ação segue o rito da tutela cautelar antecedente, previsto no artigo 20-B da Lei 11.101/2005, e as empresas afirmam que ainda vão ajuizar formalmente o pedido de recuperação judicial.
O que o grupo pede ao juízo
A Fex Agro solicita, em caráter liminar e sem ouvir a parte contrária, uma série de medidas:
- liberação de valores bloqueados, entre eles mais de R$ 400 mil constritos em uma execução em São Paulo
- suspensão de execuções em curso
- interrupção da retirada de bens de capital
- sobrestamento de cláusulas de vencimento antecipado
- suspensão dos efeitos de protestos e anotações em birôs de crédito.
Até o momento, o juízo não decidiu sobre nenhum desses pontos. Os autos registram apenas atos processuais: a distribuição da ação, a retificação da autuação, a certidão de custas não recolhidas em 9 de setembro e a juntada do comprovante de pagamento no dia seguinte.
Os números que sustentam o pedido
A petição afirma que a Fex Agro fechou 2025 com lucro líquido de R$ 2,59 milhões, segundo as demonstrações auditadas. Ainda assim, a projeção de caixa do grupo indica um déficit de cerca de R$ 80,6 milhões no pior mês, caso o cronograma atual da dívida permaneça inalterado.
As certidões de protesto também pesam contra o grupo: em junho de 2026, foram lavrados sete protestos em duas comarcas. São quatro contra a matriz, em Primavera do Leste, e três contra a filial de Canarana, somando R$ 2,05 milhões.
O que muda para quem tem crédito a receber? Por ora, nada muda na prática. Sem uma decisão judicial, execuções, protestos e bloqueios de valores continuam vigentes normalmente. O documento mais relevante para os credores segue sendo a lista de R$ 76,9 milhões, que o grupo apresenta como a base dos créditos que pretende incluir na futura recuperação judicial. Quem constar na relação deve conferir os valores e os contratos correspondentes.
O caso tramita sob o número XXXXX-97.2026.8.11.0037, na 3ª Vara Cível da Comarca de Primavera do Leste (MT). Dois pontos definem os próximos desdobramentos: a decisão do juízo sobre a suspensão de 60 dias solicitada em caráter liminar e o protocolo formal do pedido de recuperação judicial, já anunciado pelo grupo mas ainda não apresentado.