Resumo da notícia
- Pesquisadores da UFC desenvolveram curativo biológico feito com pele de tilápia que protege queimaduras, aderindo à ferida e acelerando a regeneração do tecido.
- O curativo mantém umidade, reduz perda de líquidos e alivia a dor ao diminuir a necessidade de trocas frequentes, promovendo cicatrização mais rápida em queimaduras de segundo grau.
- Após uma década de pesquisa, o produto avança para produção industrial no Ceará, mas ainda precisa passar por etapas regulatórias antes de ser usado em hospitais.
A pele de tilápia, muitas vezes descartada durante o processamento do pescado, ganhou uma função que vai além da cadeia de alimentos. Pesquisadores brasileiros desenvolveram um curativo biológico temporário que adere à área queimada e protege a ferida enquanto o tecido se regenera.
A tecnologia nasceu de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e vem sendo estudada desde 2014. Após uma década de testes, o projeto agora avança em direção à produção industrial, mas o produto ainda precisa cumprir etapas regulatórias antes de chegar aos hospitais e ao mercado.
O material não é simplesmente retirado do peixe e colocado sobre a queimadura. A pele passa por limpeza, tratamento, esterilização e liofilização. O processo remove a água e permite conservar o biomaterial por mais tempo. Antes da aplicação, profissionais de saúde reidratam o curativo com solução adequada.
Como a pele de tilápia age na queimadura
O curativo funciona como uma cobertura oclusiva e temporária. Depois da limpeza da lesão e da retirada dos tecidos comprometidos, a pele tratada é posicionada sobre a queimadura. O material adere ao leito da ferida e cria uma barreira contra o ambiente externo.
Essa aderência ajuda a manter a umidade necessária à recuperação, reduz a perda de líquidos e diminui a exposição da região lesionada. A pele da tilápia também apresenta grande quantidade de colágeno tipo 1, proteína importante para a estrutura dos tecidos.
“A pele da tilápia faz exatamente o que gostaríamos, que é aderir ao leito da ferida”, explicou o médico Edmar Maciel Lima Júnior, coordenador da pesquisa, em divulgação da UFC.

Nos tratamentos convencionais com sulfadiazina de prata, a equipe médica pode precisar retirar e refazer o curativo com frequência. Esse procedimento costuma causar dor porque a área queimada permanece sensível. Já o biomaterial de tilápia pode permanecer sobre a lesão durante boa parte da regeneração, reduzindo as manipulações.
Menos dor e cicatrização mais rápida
Os pesquisadores começaram com análises laboratoriais e testes pré-clínicos antes de avançar para estudos com pacientes. A equipe avaliou resistência, segurança, presença de colágeno e capacidade de aderência do material.
Na fase clínica divulgada pela UFC, o curativo foi estudado em pessoas com queimaduras de segundo grau. Nos casos superficiais acompanhados, o tempo de tratamento caiu cerca de um dia e meio. Entre pacientes internados com lesões profundas de segundo grau, a redução média chegou a dois dias e meio.
A pesquisa também apontou alívio progressivo da dor e menor necessidade de trocar a cobertura. Os resultados são promissores, mas se referem aos grupos avaliados pelos pesquisadores e não significam que o material terá o mesmo efeito em qualquer ferimento ou paciente.
Em queimaduras de terceiro grau, que podem exigir enxerto de pele do próprio paciente, o biomaterial também é pesquisado como cobertura temporária e como apoio à recuperação da área doadora. A indicação precisa ser definida pela equipe médica de acordo com a profundidade e a extensão da lesão.
Pele usada no curativo passa por preparação rigorosa
A aparência semelhante às escamas do peixe pode transmitir a impressão de um tratamento simples. No entanto, o produto médico passa por um protocolo de preparação que elimina microrganismos e reduz riscos de contaminação.
Após a retirada, as peles são limpas, descontaminadas, desidratadas e esterilizadas. A versão liofilizada pode ser armazenada sem refrigeração e depois reidratada antes do uso. O material também é embalado em condições controladas.
Por isso, a pele comprada em peixarias ou retirada de uma tilápia não deve ser colocada sobre queimaduras. O uso doméstico do material cru pode contaminar a ferida e agravar a lesão. Queimaduras extensas, profundas ou localizadas no rosto, mãos, pés, articulações e áreas íntimas exigem avaliação profissional.
Tecnologia ainda depende de aprovação da Anvisa
A UFC licenciou a tecnologia da pele de tilápia liofilizada para um consórcio privado, responsável pelo desenvolvimento, pela produção e pela futura comercialização. O acordo prevê um curativo destinado a feridas e queimaduras em humanos e animais.
Antes da venda, porém, ainda serão necessárias verificações de eficácia, estudos de alergenicidade e sensibilidade e as aprovações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O licenciamento prevê prazo máximo de cinco anos para o início da comercialização voltada a humanos e de três anos para aplicações em animais. A produção atual da UFC continua vinculada às pesquisas.
Fábrica deve ampliar produção no Ceará
O avanço industrial ocorrerá em Jaguaribara, no Ceará, município localizado próximo a uma importante região produtora de tilápia. A fábrica deverá começar a operar em 2028, com previsão inicial de cerca de 4,3 mil curativos por dia e capacidade para alcançar aproximadamente 12 mil unidades diárias.
Hoje, a preparação em laboratório ocorre em escala bem menor. A nova estrutura pretende transformar a pesquisa acadêmica em um produto capaz de atender hospitais, clínicas veterinárias e, futuramente, outros mercados.
O projeto já foi detalhado pelo Agro em Campo na matéria Ceará terá fábrica que transforma pele de tilápia em curativos.
Além do impacto médico, a iniciativa cria um novo destino para um subproduto da piscicultura.