Resumo da notícia
- Uma nova espécie de pinguim, Pygoscelis kerguelensis, foi identificada nas remotas Ilhas Kerguelen, sendo a primeira descoberta do tipo em mais de 100 anos.
- A pesquisa analisou genomas, vocalizações e características físicas, revelando diferenças genéticas que classificam essa espécie como críptica, semelhante em aparência, mas distinta no DNA.
- Além da nova espécie, o estudo propõe que o pinguim-gentoo seja dividido em quatro espécies, separadas há 300 a 500 mil anos por isolamento geográfico e diferenças alimentares.
Uma população de pinguins das remotas Ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, foi formalmente descrita como uma nova espécie. Batizada de Pygoscelis kerguelensis, a ave é considerada pelos pesquisadores a primeira nova espécie de pinguim reconhecida pela ciência em mais de 100 anos.
A descoberta faz parte de um estudo liderado por pesquisadores do Chile e da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Publicada na revista Communications Biology, a pesquisa também propõe uma revisão do grupo dos pinguins-gentoo, que passaria a reunir quatro espécies.
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Diferenças estavam escondidas no DNA
O novo pinguim vive principalmente nas Ilhas Kerguelen, arquipélago francês conhecido também como Ilhas da Desolação. A região fica a cerca de 3.200 quilômetros da área permanentemente habitada mais próxima.
À primeira vista, Pygoscelis kerguelensis se parece com outros pinguins-gentoo. O animal tem dorso preto, região ventral branca e bico alaranjado. No entanto, os pesquisadores encontraram diferenças no tamanho, nas vocalizações e, principalmente, no material genético.

Por isso, o estudo classifica a nova espécie como críptica. O termo descreve organismos que apresentam aparência semelhante à de espécies próximas, mas possuem diferenças genéticas importantes.
“Provavelmente não há nenhuma espécie de pinguim cuja taxonomia tenha sido mais debatida do que a do pinguim-gentoo. Há mais de 100 anos existe controvérsia sobre quantas espécies ou quantas subespécies existem. O que este artigo faz é tentar responder a essa questão utilizando abordagens integrativas de ponta”, afirma Rauri Bowie, professor da UC Berkeley e curador do Museu de Zoologia de Vertebrados.
Para chegar à conclusão, os cientistas analisaram o genoma completo de 64 pinguins de dez colônias reprodutivas. Além disso, compararam tamanho, coloração, vocalizações, alimentação e comportamento.
Pinguins-gentoo podem formar quatro espécies
Além de descrever Pygoscelis kerguelensis, chamado de pinguim-gentoo-do-sudeste, o estudo propõe elevar três grupos anteriormente tratados como subespécies.
O pinguim-gentoo-do-norte, Pygoscelis papua, ocorre nas Ilhas Falkland/Malvinas e em Martillo. Já o gentoo-oriental, Pygoscelis taeniata, vive nas ilhas Crozet, Marion e Macquarie.
Por sua vez, o gentoo-do-sul, Pygoscelis ellsworthi, habita a Península Antártica, áreas costeiras da Antártida e a Geórgia do Sul. A nova espécie teria evoluído nas Ilhas Kerguelen e provavelmente também utiliza a Ilha Heard.

Segundo o estudo, as quatro linhagens se separaram entre 300 mil e 500 mil anos atrás. Nesse período, o isolamento das ilhas e a Frente Polar Antártica limitaram o contato entre as populações.
A alimentação também pode ter contribuído para essa separação. Os gentoos consomem peixes, krill, lulas e outros animais e costumam retornar aos mesmos locais de reprodução. Assim, populações isoladas passaram a desenvolver características próprias ao longo do tempo.
Mudanças climáticas preocupam pesquisadores
Além da classificação das espécies, o estudo avaliou possíveis efeitos das mudanças climáticas sobre esses animais. Os modelos usados pelos pesquisadores indicam que, até 2050, três das linhagens que vivem em regiões subantárticas podem perder grande parte das áreas adequadas que ocupam atualmente.
Como os arquipélagos ficam separados por grandes distâncias, as populações afetadas podem ter poucas alternativas para ocupar novas áreas.
O cenário, porém, não seria igual para todas as linhagens. Os modelos indicam que o gentoo-do-sul pode sofrer menos impacto e até ampliar sua distribuição pela Antártida.
Atualmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza considera os gentoos como uma única espécie e os classifica como “pouco preocupante”. Para os autores do estudo, essa classificação conjunta pode esconder riscos enfrentados por populações menores e geograficamente isoladas.
“Na Antártida, é claro, outras espécies, e não o gentoo, estão ameaçadas pelas mudanças climáticas. Mas o gentoo é o que mais preocupa na
. É muito importante que as instituições de conservação de todos os diferentes países envolvidos reconheçam essas três espécies de pinguins-gentoo e adotem as medidas adequadas para salvá-las”, afirma Juliana Vianna, professora da Universidade Andrés Bello, no Chile, e uma das autoras.
Diante disso, os pesquisadores defendem avaliações separadas, novos censos das colônias e programas específicos de monitoramento.
“O sequenciamento do genoma completo transformou nossa capacidade não apenas de observar a adaptação pela perspectiva de como os organismos se diversificam, mas também possui um valor muito importante para a conservação”, afirmou Bowie.
O estudo teve Daly Noll, da Universidade do Chile, como primeira autora e reuniu pesquisadores de vários países, incluindo o Brasil.