Pesquisador da Embrapa explica os impactos da redução das abelhas sobre a polinização, a vegetação e a produção de alimentos
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Abelha. Itacarambi MG. Foto Tony Oliveira/Flickr

Se as abelhas desaparecessem do planeta, diferentes relações entre plantas e polinizadores seriam afetadas. Esses insetos participam da polinização de várias espécies e mantêm relações específicas com as flores.

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O pesquisador Marcos Jacob, da Embrapa Meio-Norte, explica que o problema começa antes mesmo de uma eventual extinção. A redução das populações já pode comprometer a reprodução de espécies nativas.

“Quando pensamos na extinção delas, muitas vezes pensamos apenas no desaparecimento completo. Mas a própria redução populacional já está causando um dano silencioso, isso porque ela afeta a perpetuação de muitas espécies nativas que dependem dessas abelhas”, explica Jacob.

“Com isso, a redução do número de colônias também diminui a capacidade que a natureza tem de se regenerar”, acrescenta.

A perda de colônias, portanto, preocupa não apenas pelo possível desaparecimento dos insetos. Ela também pode reduzir a capacidade de determinados ambientes de manter suas relações entre plantas e polinizadores.

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Por que uma abelha não substitui outra

A diversidade das abelhas ajuda a sustentar diferentes relações entre insetos e plantas. Cada espécie apresenta características próprias e pode atuar de maneira específica na reprodução das flores.

Por isso, uma abelha visitar uma flor não significa necessariamente que ela realizou a polinização.

“É importante dizer que o fato de uma abelha frequentar uma flor para retirar néctar ou pólen não significa necessariamente que ela esteja polinizando. Significa que está extraindo apenas seu alimento”, explica.

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Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Flickr

A anatomia do inseto também interfere nesse processo. Algumas flores possuem estruturas que determinadas espécies de abelhas não conseguem alcançar. Nesse caso, o inseto pode retirar alimento sem realizar a polinização esperada.

Jacob cita como exemplo abelhas do gênero Apis, que não conseguem alcançar o pólen localizado na ponta de estruturas muito finas de algumas flores.

Outros animais também participam da polinização. Formigas, mariposas, morcegos e borboletas, por exemplo, transportam pólen entre plantas. No entanto, segundo o pesquisador, nenhum desses grupos substitui integralmente as diferentes relações estabelecidas pelas espécies de abelhas.

O que ameaça as abelhas

As abelhas enfrentam diferentes ameaças, entre elas a perda de habitat, a exposição a produtos tóxicos e as mudanças climáticas.

O aquecimento do planeta pode alterar a época e a intensidade da floração. Como consequência, também pode modificar a oferta de néctar e pólen disponível para as colônias.

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Além disso, períodos de chuva intensa podem dificultar o voo dos insetos. A água também pode lavar o pólen e diluir o açúcar presente no néctar, reduzindo a disponibilidade desses recursos.

“Você pode matar um ser vivo diretamente, mas pode matar um ser vivo tirando o alimento dele”, afirma Jacob.

A perda de vegetação também reduz os locais onde as colônias encontram alimento e abrigo. Nesse contexto, o pesquisador chama atenção para o desmatamento seletivo, que pode retirar determinadas árvores mesmo quando a área continua aparentemente coberta por vegetação.

Árvores de troncos mais grossos estão entre as que florescem durante o período seco. Algumas também possuem ocos que servem de abrigo para os insetos.

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Quando essas árvores desaparecem, as abelhas perdem fontes de alimento e possíveis locais para formar colônias.

Criação de abelhas pode ajudar na conservação

Além de produzir mel, pólen e própolis, a apicultura mantém colônias em atividade. A criação comercial, porém, utiliza principalmente a Apis, espécie exótica que já está naturalizada no Brasil.

Por isso, Jacob defende que a atividade econômica precisa caminhar junto com a conservação das espécies nativas. Entre as possibilidades citadas pelo pesquisador estão o zoneamento de áreas de preservação e a criação de faixas de controle para capturar colônias e transferi-las para locais seguros.

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Foto: Igo Estrela/Flickr

Já a meliponicultura, voltada às abelhas sem ferrão, trabalha diretamente com espécies nativas.

Em Bela Vista do Piauí, por exemplo, meliponicultores criam uma abelha conhecida como “mansa”. A iniciativa reúne cerca de 1.500 colônias e 60 sócios, conforme as informações apresentadas pelo pesquisador.

A criação em caixas também oferece abrigo para abelhas que perderam parte de seus locais naturais de moradia na Caatinga. Além disso, as colônias continuam participando da polinização de lavouras e da vegetação nativa.

O desafio está em manter essa atividade economicamente viável. As abelhas sem ferrão formam colônias menores e produzem menos mel do que as Apis. Embora o produto possa alcançar maior valor, a renda nem sempre sustenta a permanência do produtor.

Por isso, Jacob defende o pagamento por serviços ambientais como uma forma de remunerar os criadores também pelo trabalho de conservação. Nesse modelo, a criação considera não apenas a produção de mel, mas também o papel das colônias na manutenção das espécies nativas e da polinização.