Estudo do Iepa acompanha plantas cultivadas perto de áreas contaminadas e investiga como solo, nutrição e agentes biológicos podem favorecer a tolerância à doença
mandioca
Foto: Tony Oliveira/Sistema CNA/Senar

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) investiga por que algumas plantas de mandioca conseguem se desenvolver mesmo próximas a áreas afetadas pela vassoura-de-bruxa. O estudo acompanha, há 15 meses, uma propriedade rural de Itaubal, no Amapá.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Na área, o produtor rural Douglas Dutra cultiva mandioca a cerca de 300 metros de plantações onde a doença já foi identificada. Até agora, as plantas apresentam bom desenvolvimento e não mostram sintomas visíveis.

“Talvez tenha a doença, mas visivelmente não apresenta sintomas. Mesmo estando em volta de vizinhos com a doença, a minha área vem dando bons resultados”, disse Douglas.

Além de acompanhar a lavoura, o pesquisador Marcelo Carim, do Iepa, observou o comportamento de plantas que voltaram a crescer depois de sofrer os efeitos da doença.

Rebrota pode indicar tolerância

Durante o estudo, Carim encontrou roças afetadas pela vassoura-de-bruxa da mandioca que voltaram a emitir brotos vigorosos depois do corte.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Esse comportamento, por si só, não comprova resistência ao fungo. Ainda assim, chamou a atenção do pesquisador porque pode indicar que determinadas plantas conseguem se recuperar e continuar o desenvolvimento mesmo depois da ocorrência da doença.

“Algumas roças, recentemente abandonadas pela vassoura-de-bruxa, apresentaram rebrota compensatória. A própria planta dá como se tivesse um reset, faz uma reorganização fisiológica, dá um start fisiológico e rebrota, lança novos ramos altamente vigorosos. Possivelmente esses ramos podem ser tolerantes à doença”.

A partir dessa observação, a pesquisa procura entender quais características permitem que algumas plantas mantenham o vigor enquanto outras sofrem maior impacto.

Solo e nutrição entram no manejo

O Iepa também avalia as condições do solo e do ambiente onde a cultura cresce. Para isso, o trabalho envolve correção do solo, rizosfera, microbiota e compostos biológicos.

A estratégia busca melhorar as condições de desenvolvimento da planta. Com isso, os pesquisadores querem verificar se uma planta bem nutrida consegue responder melhor à presença do fungo.

Carim também utiliza o conceito de indução de resistência, uma estratégia já estudada em diferentes culturas. Como referência, ele cita pesquisas realizadas anteriormente com a banana e o mal-do-Panamá.

“Nós desenvolvemos também diversos mecanismos de defesa, e um deles era a indução de resistência. A indução de resistência não é algo que eu criei, é algo que já existe para diversas culturas. […] então criamos condições para que a planta, bem alimentada, bem nutrida, possa combater a doença”, disse.

Agora, o estudo entra em uma nova etapa. Os pesquisadores vão testar produtos biológicos voltados ao desenvolvimento das plantas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Carim cita o PF55, uma bactéria que, segundo ele, atua no solo, nas raízes e na absorção de nutrientes. Os novos testes ainda precisam mostrar se essa estratégia melhora o desempenho da mandioca diante da doença.

Variedade jurará é usada no estudo

A pesquisa utiliza a variedade jurará, escolhida a pedido do produtor rural. Segundo as informações apresentadas no estudo, a Embrapa Amapá também recomenda essa variedade.

Para Douglas, a escolha está relacionada ao rendimento e à facilidade de processamento.

“Ela tem uma boa aceitação comercial. A jurará dá um melhor rendimento de mandioca, enquanto outras variedades demoram dois dias pra processar uma tonelada, ela leva só um dia. Então ela tem uma industrialização mais fácil”, disse.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Em maio, o produtor colheu cerca de 25 toneladas de mandioca com apoio do trabalho desenvolvido pelo Iepa. Mesmo com a produção, porém, ele enfrentou dificuldade para encontrar compradores.

Segundo Douglas, reduzir o plantio ajuda a diminuir o risco de acumular produto sem mercado.

“Se você produz muito, fica complicado vender. Quando você diminui a produção, é mais fácil conseguir vender e comercializar, você escolhe os clientes. Quando você tem muita produção, acaba tendo que mandar para qualquer um e eles demoram para pagar, às vezes não pagam”, destacou.

Doença já alcança 15 municípios do Amapá

O avanço da doença aumenta a importância de pesquisas que busquem alternativas para manter a produção. Segundo a Diagro, a vassoura-de-bruxa já foi registrada em 15 dos 16 municípios do Amapá.

Entre eles estão Itaubal, onde o estudo ocorre, além de Oiapoque, Calçoene, Amapá, Pracuúba, Tartarugalzinho, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Porto Grande, Cutias do Araguari, Ferreira Gomes, Macapá, Santana, Laranjal do Jari e Mazagão.

A doença chegou ao conhecimento das autoridades brasileiras em 2024, após a identificação de focos em áreas de produção e terras indígenas do Oiapoque, no Amapá. Desde então, os órgãos de defesa agropecuária passaram a monitorar a ocorrência e adotar medidas de controle.

Por enquanto, a pesquisa do Iepa não permite afirmar que a variedade estudada seja resistente à doença. O trabalho busca justamente entender por que determinadas plantas conseguem manter o desenvolvimento mesmo sob pressão do fungo.