Resumo da notícia
- O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes usados na agricultura, o que aumenta a vulnerabilidade dos produtores às variações de preços e crises internacionais, impactando os custos e o planejamento agrícola.
- A alta do enxofre em 2026, que subiu de US$ 80 para até US$ 1.200 por tonelada, exemplifica os riscos dessa dependência, elevando custos e levando empresas do setor a reduzir atividades e solicitar apoio do governo.
- Cada nutriente enfrenta desafios específicos: custos elevados do gás afetam fertilizantes nitrogenados, reservas limitadas prejudicam a produção fosfatada competitiva, e o potássio depende de grandes jazidas externas.
O Brasil se tornou uma potência na produção de grãos, mas ainda depende do mercado internacional para obter grande parte dos fertilizantes usados na agricultura. Segundo dados oficiais, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados. Essa dependência aumenta a exposição dos produtores às oscilações internacionais, já que crises geopolíticas, problemas de oferta e altas nas matérias-primas podem elevar os custos dos insumos e afetar o planejamento das lavouras.
A alta do enxofre em 2026 mostrou esse risco. O insumo, usado na produção de fertilizantes fosfatados, passou de cerca de US$ 80 por tonelada em 2024 para aproximadamente US$ 1.200 durante a crise no Oriente Médio. Depois, recuou para cerca de US$ 800. A valorização elevou os custos das indústrias brasileiras e levou empresas do setor a reduzir atividades. O segmento também pediu ao governo federal uma ajuda de R$ 2 bilhões.
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Nitrogenados dependem do custo do gás
A dependência brasileira tem causas diferentes para cada nutriente. Nos fertilizantes nitrogenados, o principal obstáculo é o custo do gás natural, usado para produzir a amônia que serve de matéria-prima para produtos como a ureia. Segundo Gisele Augusto, responsável pela precificação de grãos e fertilizantes da consultoria Argus, o custo do gás reduz a competitividade da produção brasileira.
“Isso também reduz a disposição de empresas em investir em unidades de produção de ureia dada a dificuldade em comercializar o produto com margens rentáveis”, observa.
Fósforo enfrenta limitações nas reservas
Nos fertilizantes fosfatados, o Brasil possui reservas de rocha fosfática, mas parte delas apresenta baixa concentração do nutriente. Isso limita a produção competitiva de produtos de maior concentração, como o MAP. “Nem sempre nós conseguimos produzir fertilizantes fosfatados de alta concentração a preços competitivos como outros países”, explica Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Por outro lado, o país produz volumes importantes de superfosfato simples (SSP). Mesmo assim, a cadeia também depende do enxofre, utilizado na fabricação de produtos como MAP e DAP. Por isso, quando o preço do insumo sobe, os custos da indústria também aumentam.
Potássio depende das grandes jazidas
No potássio, a localização das reservas ajuda a explicar a dependência brasileira. Canadá, Belarus e Rússia concentram grandes depósitos e desenvolveram uma indústria baseada nessa vantagem. “O Brasil não desfruta de tal posição como outros países que estão sentados em cima de uma mina”, resume Tomás Pernías.
O Brasil possui reservas e projetos para ampliar a produção doméstica. Entretanto, a expansão depende da exploração das jazidas e da viabilidade de transformar o minério em fertilizante.
Assim, o país enfrenta obstáculos diferentes em cada nutriente: custo do gás no nitrogênio, características das reservas no fósforo e localização das jazidas no potássio. Enquanto a produção nacional não avança, os agricultores continuam expostos às condições internacionais de preço e oferta dos fertilizantes.