Resumo da notícia
- A NOAA prevê 60% de chance de El Niño moderado a forte em 2026, com aquecimento do Pacífico que afetará clima e agricultura brasileira, especialmente entre julho e setembro.
- El Niño intensifica pressão fitossanitária, com calor e umidade acelerando fungos e bactérias; produtores devem investir em monitoramento e manejo preventivo para reduzir perdas.
- Regiões terão impactos distintos: Sul com mais chuvas e enchentes; Norte e Nordeste enfrentarão seca e calor; Sudeste e Centro-Oeste terão chuvas irregulares e ondas de calor frequentes.
A previsão de um El Niño de intensidade moderada a forte em 2026 coloca o setor agrícola brasileiro em estado de alerta. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) aponta 60% de probabilidade de o fenômeno,caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico acima da temperatura média, se desenvolver entre julho e setembro deste ano, com influência nos meses seguintes.
O impacto vai além de temperaturas mais altas ou chuvas mais intensas. Para o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion, o fenômeno cria um ambiente altamente favorável à pressão fitossanitária. “Temperaturas elevadas combinadas com umidade, especialmente no Sul e no Sudeste, aceleram ciclos de fungos e bactérias e exigem do produtor uma postura mais preventiva do que reativa. O agricultor que se antecipa e investe em monitoramento constante tende a reduzir perdas e preservar qualidade, mesmo em um cenário climático adverso”, afirma.
Riscos regionais
A equipe de hortifruticultura (HF) do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) identificou os principais vetores de risco para 2026: temperaturas mais elevadas em relação a 2025 e mudanças regionais no regime de chuvas, com efeitos diretos sobre a demanda hídrica das culturas, a produtividade e a rentabilidade dos produtores.
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Os impactos variam conforme a região. No Sul, crescem o volume de chuvas e o risco de enchentes, sobretudo na primavera e no verão. Já no Norte e no Nordeste, a tendência é de seca e temperaturas mais altas, com pressão sobre reservatórios. No Sudeste e no Centro-Oeste, as chuvas ficam mais irregulares e as ondas de calor, mais frequentes.
Planejamento como diferencial competitivo
Diante desse cenário, monitoramento climático contínuo, manejo preciso, escalonamento de plantios e avaliação criteriosa de riscos serão determinantes para preservar produtividade e rentabilidade na horticultura brasileira, segundo o Cepea.
A engenheira agrônoma Patrícia Cesarino reforça a necessidade de adaptação regional. “No Nordeste e em áreas de sequeiro, o desafio será a limitação hídrica e o estresse térmico. Já nas regiões com excesso de chuva, o foco deve ser a proteção contra doenças de solo e foliares. O comportamento mais prudente será escalonar plantios, revisar o calendário agrícola e fortalecer o manejo integrado, combinando genética, nutrição equilibrada e soluções fitossanitárias adequadas para cada realidade regional”, explica.
Cultivos em risco
Cenoura, alface, batata, cebola e tomate figuram entre os cultivos mais vulneráveis ao fenômeno. O excesso de chuvas desde novembro no Cerrado mineiro e goiano já atrasou o calendário da próxima safra de batata, cebola e tomate. Cenoura e alface também sofrem com perdas de qualidade e atrasos em plantios e colheitas, especialmente no Cerrado de Minas Gerais e no Sudeste, conforme análise do Cepea.
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Para Centurion, tecnologias de proteção de cultivos ganham papel estratégico nesse contexto. “A qualidade do fruto passa a ser decisiva para a remuneração do produtor. Essas tecnologias ajudam a manter o padrão comercial, reduzir descartes e evitar perdas pós-colheita. A recomendação é investir em planejamento técnico, protocolos preventivos e acompanhamento agronômico próximo, transformando o manejo climático em uma vantagem competitiva”, aponta.
O que a história ensina
O El Niño mais recente, ocorrido entre 2023 e 2024 e classificado como forte, contribuiu para que 2023 se tornasse o ano mais quente já registrado globalmente. No Brasil, o fenômeno gerou chuvas excessivas no Sul, seca histórica na Amazônia e irregularidade de precipitações no Centro-Oeste e no Sudeste.
Os reflexos econômicos foram significativos: em 2024, o valor da produção agrícola brasileira chegou a R$ 783,2 bilhões, recuo de 3,9% em relação ao ano anterior, segundo a Agência Brasil. A produção total de cereais, leguminosas e oleaginosas caiu 7,5%, para 292,5 milhões de toneladas, mesmo com expansão de 1,2% na área plantada, que somou 97,3 milhões de hectares.
Linha do tempo do El Niño em 2026
Com base nos padrões históricos do fenômeno, os especialistas traçam a seguinte projeção para este ano:
- Julho a agosto (inverno): aquecimento do Pacífico ganha força e se consolida
- Setembro a novembro (primavera): efeitos ficam mais claros na atmosfera
- Dezembro a janeiro (verão): possível pico do evento
Entre os episódios mais intensos já registrados estão o de 1997–1998 e o de 2015–2016, ambos com anomalias de +2,3°C no Pacífico, além do de 1982–1983, primeiro grande evento monitorado por satélites modernos, que gerou fortes impactos econômicos globais.