Resumo da notícia
- Pesquisadores da Embrapa Agroenergia desenvolvem bioestimulante à base de algas brasileiras que aumenta em até 160% a produtividade da canola e melhora o crescimento radicular do trigo sob estresse hídrico.
- O projeto Algoj valoriza a biodiversidade marinha e gera renda para comunidades pesqueiras, unindo sustentabilidade e adaptação climática com o uso de algas cultivadas na costa brasileira.
- A equipe inovou ao criar um extrato seco em pó com baixa umidade que preserva os fitormônios, reduz custos de transporte e permite maior rendimento na produção do bioinsumo agrícola.
Pesquisadores da Embrapa Agroenergia, em Brasília (DF), estão avaliando o potencial de algas marinhas brasileiras como base para um bioestimulante agrícola capaz de aumentar a tolerância de culturas como trigo e canola ao estresse hídrico. Em testes realizados em casa de vegetação, os cientistas observaram incrementos de até 160% na formação de síliquas da canola. E crescimento radicular até 12% maior no trigo, características essenciais para a manutenção da produtividade em períodos de seca.
O projeto, chamado Algoj, conta com parceria da CBKK e recebe apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). As pesquisadoras Simone Mendonça e Patrícia Abrão coordenam a iniciativa desde 2023 e consideram os resultados preliminares promissores. A próxima etapa prevê testes em campo, onde fatores ambientais não sofrem controle.
Algas brasileiras: bioinsumo e geração de renda
Além do impacto agronômico, o projeto busca valorizar a biodiversidade marinha nacional. As algas utilizadas são cultivadas em diferentes pontos da costa brasileira, contribuindo para a geração de emprego e renda a comunidades pesqueiras. “É uma oportunidade para unir sustentabilidade, adaptação climática e valorização de recursos naturais do Brasil”, destaca Mendonça.
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Nos dois primeiros anos de pesquisa, os cientistas analisaram quatro espécies de algas e selecionaram três com maior potencial biotecnológico. O foco foi extrair metabólitos secundários, conhecidos como fitormônios, que atuam como sinalizadores químicos capazes de estimular respostas benéficas nas plantas.
Após vários testes de secagem e extração, quatro extratos foram selecionados a partir de ensaios com mudas de tomate da variedade BRS Zamir, desenvolvida pela própria Embrapa.
Resultados positivos em grãos do Cerrado
Em seguida, o projeto avançou para experimentos com trigo e canola, culturas de inverno em expansão no Cerrado, bioma que enfrenta estiagens cada vez mais severas.

Nos testes com canola, uma das formulações de algas antecipou o florescimento e aumentou a produtividade sob limitação de água, resultados superiores aos obtidos com produtos comerciais de referência. No trigo de sequeiro, a aplicação promoveu crescimento de raízes até 12% maior, favorecendo o aproveitamento de água no solo.
O pesquisador Agnaldo Chaves ressalta que os dados referem-se a condições controladas. “Se conseguirmos replicar de 5% a 10% desses resultados em lavouras comerciais, será um avanço importante para a produtividade”, avalia.
Inovação no transporte e conservação do bioinsumo
Outro desafio enfrentado pelo grupo foi desenvolver uma formulação que garantisse estabilidade e baixo custo de transporte. Para isso, a equipe criou um extrato seco em pó, obtido pelo processo de spray dryer, com apenas 1,5% de umidade. A técnica preserva os fitormônios sensíveis ao calor e aumenta o rendimento da produção em até 80%.
Com a fase de testes em casa de vegetação concluída em janeiro de 2026, o projeto busca renovar a parceria e levar os experimentos para o campo experimental e áreas de produtores. Lá, serão definidas doses ideais, épocas de aplicação e a viabilidade comercial do bioestimulante.
Ainda há pontos em estudo, como a combinação ideal de diferentes espécies de algas e o desempenho do extrato em regiões com regimes de chuva distintos. “Somente os testes em campo vão mostrar o real potencial do produto e sua adaptação às condições climáticas brasileiras”, afirma Mendonça.
A expectativa é que a tecnologia resulte em um bioinsumo sustentável, produzido com recursos da biodiversidade nacional, capaz de fortalecer a resiliência das lavouras brasileiras à seca e apoiar a adaptação da agricultura às mudanças climáticas.