Pesquisa mostra que práticas agrícolas pré-históricas favoreceram plantas mais competitivas por luz e espaço
Clima afeta produção de alimento

Um estudo internacional revelou que os primeiros agricultores podem ter criado, sem perceber, variedades de trigo altamente competitivas, apelidadas de “trigo guerreiro”. A descoberta ajuda a entender como a domesticação da planta transformou sua estrutura e comportamento, influenciando até o melhoramento genético moderno.

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Pesquisadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, em parceria com universidades da Espanha e da Holanda, analisaram como o cultivo humano alterou o trigo selvagem ao longo de milhares de anos. Segundo o professor Colin Osborne, líder da pesquisa, o simples ato de plantar sementes em campos organizados criou um ambiente competitivo intenso, onde apenas as plantas mais rápidas e vigorosas prosperavam.

Com o tempo, essa seleção natural favoreceu trigos capazes de crescer mais rápido e sombrear vizinhas, garantindo mais luz e nutrientes. As plantas desenvolveram folhas maiores, caules mais retos e crescimento vertical, traços típicos do que os cientistas chamaram de “trigo guerreiro”.

Por que o trigo antigo era mais agressivo

Para entender essa transformação, os cientistas usaram um modelo computacional chamado FSP (modelo funcional-estrutural de planta), que simula o crescimento do trigo sob diferentes condições. O estudo mostrou que o ângulo das folhas foi decisivo: plantas com folhas mais verticais conseguiam captar mais luz solar, superando as concorrentes nas fases iniciais do desenvolvimento.

Essas características, ideais para lavouras antigas, contrastam com as exigências da agricultura moderna. Hoje, o foco está em produtividade cooperativa, e não em competição entre plantas.

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Do trigo guerreiro ao trigo moderno

Com o avanço das técnicas agrícolas e o uso de fertilizantes e herbicidas, os produtores não dependem mais de plantas naturalmente competitivas. O melhoramento genético passou a priorizar variedades com folhas menores e caules curtos, capazes de investir mais energia na formação de grãos.

“O cultivo moderno exige plantas que cooperem, não que disputem entre si”, destacou Osborne. “Precisamos reverter os efeitos indesejáveis da evolução para otimizar os rendimentos atuais.”

O estudo, publicado na revista Current Biology, sugere que a evolução inicial do trigo foi marcada por uma espécie de “corrida por luz e espaço”. Essa descoberta mostra como práticas agrícolas do passado moldaram uma das culturas mais importantes do planeta e oferece novas pistas para desenvolver cultivares mais eficientes e adaptadas ao clima atual.