Resumo da notícia
- Araquari, antes referência na produção de maracujá em SC, sofreu com uma virose que dizimou pomares entre 2008 e 2019, causando queda na atividade agrícola no município.
- Ações integradas entre pesquisadores, Epagri e prefeitura aumentaram o número de produtores de 19 em 2022 para 34 em 2025, com distribuição crescente de mudas para recuperação dos pomares.
- O intercâmbio com o Sul do Estado, maior produtor, e o manejo adequado das doenças são estratégicos para a retomada, destacando a importância do manejo e técnicas específicas para controle das enfermidades.
Há 20 anos, Araquari ocupava posição de destaque na fruticultura de Santa Catarina pela produção de maracujá. Isso tanto que o município carregava o título de Capital Catarinense do Maracujá e realizava uma festa anual em sua homenagem. Uma doença viral, porém, dizimou pomares inteiros entre 2008 e 2019 e praticamente encerrou a atividade no Litoral Norte. Agora, uma ação conjunta entre pesquisadores, extensionistas da Epagri de Norte a Sul do Estado e a prefeitura municipal reverte esse cenário.
O número de produtores de maracujá no município cresceu de 19, em 2022, para 34 em 2025, segundo dados do escritório da Epagri local. Nesse mesmo período, a prefeitura ampliou a distribuição de mudas: foram 23,5 mil na safra 2023/24 e 43 mil na safra seguinte.
A doença que mudou tudo
O vilão da história é a virose do endurecimento do fruto, transmitida por pulgões. Após anos de pesquisa na Estação Experimental da Epagri em Urussanga (EEUR), os pesquisadores identificaram o vírus em 2016.
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Em 2020, o Estado publicou a primeira portaria instituindo o vazio sanitário do maracujá-azedo, com recomendação de 30 dias. Na região de Araquari, o período começa em 1.º de julho.

“O vírus não gosta de se alimentar da seiva do maracujazeiro, mas acaba provando a planta. E é nesse momento que ocorre a contaminação, geralmente nos tecidos jovens”, explica o pesquisador e engenheiro-agrônomo Henrique Petry. Ele recomenda que as mudas produzidas em sistema protegido atinjam pelo menos 80 cm antes do transplante.
Intercâmbio com o Sul como estratégia central
O Sul catarinense concentra hoje 90% da produção de maracujá do Estado. Para aproveitar esse conhecimento acumulado, a Epagri organiza seminários, cursos e visitas técnicas que levam produtores do Litoral Norte às propriedades sulistas referência em produtividade.
Em abril, um seminário em Araquari reuniu a Epagri, o Instituto Federal Catarinense (IFC), a Cidasc e a prefeitura. O técnico agrícola e gestor do Centro de Treinamento da Epagri em Araranguá (Cetrar), Sandoval Ferreira, apresentou as principais estratégias de controle de doenças, entre elas a verrugose, a antracnose, a bacteriose e a fusariose.
“O que aprendemos durante 20 anos de trabalho é que o segredo está no manejo. Não adianta apenas aplicar produtos”, afirma Sandoval.
A fusariose, doença de solo que ataca as raízes, exige atenção especial à cobertura vegetal. “Antes só havia aveia disponível; hoje existem misturas de nabo, ervilhaca e centeio. No verão, o produtor pode usar milheto e braquiária”, orienta o técnico.
O extensionista rural Valdemar Sievert, que atua em Araquari há seis meses, planeja visitas periódicas às propriedades para apoiar a adoção das técnicas. “Quero mostrar os benefícios de eliminar todos os pés de maracujá na época certa e apresentar políticas públicas para melhorar a produtividade”, diz.
Sistema de latada eleva produtividade em até 330%
Uma das principais mudanças técnicas é a troca do sistema espaldeira pelo sistema de latada, no qual as ramas crescem sobre uma malha de arames aérea, formando um teto verde que facilita a colheita e a poda. Com isso, a produtividade média saltou de 18 para 30 toneladas por hectare. E propriedades bem manejadas chegam a 77 toneladas.
“A adoção do sistema de latada no Sul tem origem cultural: é uma região produtora de vinho, e as uvas crescem em parreiras. Mas nada impede que o sistema espaldeira dê bons resultados, desde que o produtor siga as boas práticas e use quebra-ventos”, pondera Petry.
O pesquisador ainda revela que testes com novos cultivares e sistema de condução com cobertura plástica estão previstos para o próximo ano. O projeto, aprovado no SC Rural 2 com recursos do Banco Mundial, pode viabilizar a produção de maracujá em regiões mais frias, como Videira, onde o pomar experimental da EEUR resistiu até a primeira geada.
Produtor troca espaldeira por latada e ganha 50% de produtividade
Julio Fialkoski, 74 anos, planta maracujá em Araquari há mais de 20 anos. Ele se aposentou como engenheiro civil e migrou para a fruticultura quando a produção local ainda estava em alta, época em que a festa anual atraía milhares de visitantes e impulsionava a venda de geleias, licores e cachaça à base da fruta. “A última festa foi em 2019”, lembra.

Após frequentar propriedades do Sul do Estado, Julio decidiu migrar do sistema espaldeira para a latada. O resultado apareceu já na primeira safra: 15 kg de fruta por planta na latada contra no máximo 10 kg na espaldeira. Um ganho de 50%.
“Na latada, a planta se mantém mais saudável. Na espaldeira, o excesso de folhas fecha o ambiente e dificulta até a polinização”, explica. Hoje, Julio colhe 60 toneladas de maracujá em três hectares e vende para uma indústria de polpas em Joinville e para mercados em Curitiba.
Além da mudança de sistema, ele investiu em análise de solo, adubação frequente, cobertura vegetal permanente e quebra-ventos nas laterais do pomar. E respeita rigorosamente o vazio sanitário. “Tem agricultor que não respeita, mas a gente sabe que é isso que mantém a virose controlada”, conclui.









