Estudo na Zâmbia mostra como os animais atravessam áreas protegidas e regiões ocupadas por humanos em busca de novas áreas e parceiros para reprodução

Três cães-selvagens-africanos (Lycaon pictus) percorreram 4.126 quilômetros pela Zâmbia durante oito meses. O deslocamento estabeleceu o maior percurso já registrado para um mamífero terrestre africano e ocorreu enquanto os animais procuravam novas áreas e oportunidades de reprodução.

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Pesquisadores da Universidade Estadual de Montana, do Programa de Carnívoros da Zâmbia e do Departamento de Parques Nacionais e Vida Selvagem da Zâmbia acompanharam os animais com coleiras equipadas com GPS. O estudo foi publicado na revista científica Ecology.

Em julho de 2025, três machos de três anos deixaram a matilha Mayukuyuku, no Parque Nacional de Kafue. Duas semanas antes, quatro fêmeas do mesmo grupo também haviam iniciado a dispersão.

Os animais pertenciam à mesma geração e tinham poucas possibilidades de reprodução dentro da própria matilha. Por isso, os pesquisadores acompanharam os deslocamentos para entender como esses cães-selvagens procuram novos grupos e áreas para se estabelecer.

Uma rota muito maior que a distância em linha reta

Os três machos seguiram inicialmente para o leste e depois avançaram por diferentes regiões do centro da Zâmbia. Durante o percurso, chegaram às proximidades de cidades como Kabwe, Kitwe e Ndola.

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Além disso, os animais mudaram de direção várias vezes e chegaram a refazer parte do caminho. Assim, a distância percorrida ficou muito acima da separação geográfica entre os pontos mais distantes da rota.

Em linha reta, a maior distância alcançada chegou a 419 quilômetros. No entanto, os machos percorreram 4.126 quilômetros ao considerar todo o trajeto registrado pelos pesquisadores.

O grupo também encontrou as quatro fêmeas durante a jornada. Em setembro de 2025, os animais se reuniram em uma área não protegida, depois que os machos haviam percorrido 1.203 quilômetros e as fêmeas, 1.404 quilômetros desde a área de origem. O encontro durou apenas um dia.

cachorro selvagem
Foto: Pixabay

Scott Creel, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade Estadual de Montana, explicou que a reprodução influencia diretamente os deslocamentos da espécie.

“Eles estão em busca de uma oportunidade, e precisam continuar procurando até encontrá-la. Isso realmente se transforma em uma odisseia”, afirmou ele à Science.

Os cães-selvagens vivem em grupos altamente sociais. Em geral, apenas o macho e a fêmea dominantes se reproduzem, enquanto os demais integrantes ajudam na criação dos filhotes. Dessa forma, indivíduos jovens podem deixar a matilha de origem e procurar outros grupos.

Ameaças fora das áreas protegidas

A longa jornada também expôs os animais a diferentes riscos. Os pesquisadores deixaram de receber sinais de duas fêmeas depois que suas coleiras pararam de transmitir dados.

Em um dos casos, os movimentos registrados antes da perda do sinal levaram os pesquisadores a suspeitar que o animal havia ficado preso em uma armadilha de arame. Uma semana depois, outra fêmea também deixou de transmitir sua localização.

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cachorro selvagem
Foto de Johnny Thorpe na Unsplash

O estudo destaca, portanto, que a capacidade dos cães-selvagens de percorrer grandes distâncias depende da existência de áreas conectadas. Os animais não permanecem apenas dentro dos parques e precisam atravessar regiões onde o contato com atividades humanas aumenta os riscos.

A espécie enfrenta perda e fragmentação de habitat, doenças e mortalidade associada às atividades humanas. Por isso, manter corredores entre áreas de conservação pode favorecer o deslocamento e o encontro entre diferentes grupos.

Os pesquisadores registraram 9.863 quilômetros de deslocamentos entre os animais monitorados. Apesar da grande mobilidade, eles observaram pouca conectividade genética e demográfica entre as populações. O resultado mostra que percorrer grandes distâncias não garante, por si só, a conexão entre diferentes grupos da espécie.

Matt Becker, diretor-executivo do Programa de Carnívoros da Zâmbia e coautor do estudo, destacou que as jornadas registradas mostram a existência de conexões naturais entre importantes áreas de vida selvagem da África.

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