Estado que lidera a produção nacional de grãos não consegue estocar nem metade da safra; juros altos e infraestrutura precária travam investimentos
Foto: Aprosoja MT

Mato Grosso consolidou sua posição como o maior produtor de grãos do Brasil, mas a infraestrutura de armazenagem não acompanhou o crescimento das lavouras. O estado consegue estocar apenas 50% da própria produção. E esse gargalo cobra um preço alto dos produtores rurais, que acabam vendendo no pior momento, pressionados pelo calendário da colheita e pela falta de alternativas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O diagnóstico é da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT). Para a entidade, o déficit de armazenagem representa hoje um dos principais entraves ao desenvolvimento do agronegócio estadual e nacional.

“Nos últimos anos, o déficit de armazenagem tem se acentuado no estado. Aproximadamente 50% da produção consegue ser armazenada. O restante precisa ser escoado rapidamente durante o período de safra, por falta de estrutura adequada”, afirmou Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso. “Os mercados importadores conhecem esse gargalo logístico no Brasil, especialmente em Mato Grosso, e acabam se aproveitando dessa situação.”

O produtor vende na hora errada e perde dinheiro

Sem capacidade própria de armazenagem, o produtor perde autonomia sobre o momento de vender a produção. Durante a colheita, a oferta elevada pressiona os preços para baixo, e quem não tem onde guardar os grãos precisa negociar sob pressão. Quase sempre aceitando condições desfavoráveis impostas por compradores e tradings.

Vinicius Baldo, produtor do núcleo de Água Boa, vive esse cenário na prática. Ele tem armazém, mas a capacidade é insuficiente para separar adequadamente os grãos e aproveitar janelas de venda mais vantajosas. “A falta de armazenamento impacta bastante, principalmente com a questão de grão avariado, ardido. A gente já precisou vender antes do momento. Se tivéssemos a capacidade adequada de armazenamento, poderíamos programar melhor as vendas e retirar a soja com mais tempo”, relata Baldo. Para ele, as principais barreiras ao investimento em infraestrutura são o crédito limitado e os juros altos.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Anos chuvosos ampliam o problema

Em safras com muita chuva, como a atual, o impacto do déficit de armazenagem se intensifica. Produtores sem armazém próprio precisam colher dentro de parâmetros rígidos de umidade para evitar descontos aplicados pelos compradores. O que reduz a flexibilidade operacional e pode gerar perdas adicionais.

Josenei Zemolin, produtor do núcleo de Gaúcha do Norte, explica como a falta de estrutura afeta diretamente as decisões durante a colheita. “Em um ano chuvoso como esse, quem tem armazém pode entrar colhendo com umidade bem alta, bem mais cedo. O custo para secar a soja é só lenha e energia. Mas quem entrega nas tradings perde muito, porque elas descontam mais do que o normal”, diz Zemolin. “Se houvesse capacidade de armazenagem suficiente, a gente poderia se programar melhor, fazer a venda futura para pagar os custos e entregar num caminhão próprio.”

Vale do Araguaia concentra o problema

O vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier, aponta que o gargalo afeta todo o estado, mas se agrava nas regiões de expansão agrícola mais recente. Especialmente no Vale do Araguaia, onde silos e armazéns não acompanharam o avanço da produção.

“Todo o Mato Grosso sofre com a falta de armazenagem. O produtor enfrenta filas e dificuldade de entregar o produto. Existem linhas de crédito, como o FCO Armazenagem e o PCA, disponíveis para o produtor, mas constantemente a gente vê falta de recursos nessas linhas”, destaca Bier.

Além da escassez de crédito, ele aponta outro obstáculo pouco discutido: a qualidade da energia elétrica no interior do estado.

“Um armazém precisa funcionar com gerador de energia, e aí vem o problema do custo com o óleo diesel. A energia elétrica de Mato Grosso é precária. Vários municípios têm energia de má qualidade, e outros sequer têm fornecimento suficiente para ampliar novos armazéns”, afirma Bier.

Crédito existe, mas não chega

Linhas de financiamento voltadas à construção de silos e armazéns existem no Brasil, mas os recursos disponíveis ficam aquém da demanda. Além da escassez, os juros pouco atrativos e as exigências de garantias restringem o acesso. Especialmente para produtores de médio porte, que mais precisariam da estrutura.

Para a Aprosoja MT, o caminho passa pela ampliação de políticas públicas e instrumentos financeiros que estimulem o investimento em infraestrutura nas propriedades. A entidade argumenta que armazenar a própria produção fortalece a posição do produtor no mercado, melhora a eficiência logística e contribui para a estabilidade do abastecimento nacional.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O que está em jogo vai além da fazenda

O déficit de armazenagem em Mato Grosso não é apenas um problema do produtor rural. Ele afeta a cadeia inteira, do transporte à comercialização, e enfraquece a posição do Brasil frente a mercados importadores que conhecem e exploram esse gargalo.

Em um estado que lidera a produção nacional de grãos, guardar a própria safra tornou-se, cada vez mais, uma condição para preservar renda, reduzir perdas e sustentar o avanço do agronegócio brasileiro.