Resumo da notícia
- A Nueva Pescanova cancelou o projeto da primeira fazenda comercial de polvos em Gran Canaria, citando dificuldades empresariais e regulatórias que alteraram condições e prazos do licenciamento.
- A criação de polvos em cativeiro enfrenta desafios naturais como comportamento solitário, necessidade de ambientes estimulantes e alimentação complexa, além da ausência de domesticação da espécie.
- O polvo possui características biológicas únicas, como três corações, sangue azul e sistema nervoso complexo, o que contribui para sua alta inteligência e dificulta sua produção em escala industrial.
A tentativa de criar polvos em escala comercial sofreu um revés na Espanha. A Nueva Pescanova abandonou o projeto daquela que seria a primeira grande fazenda comercial desses animais no mundo, prevista para Gran Canaria.
A instalação teria 52 mil metros quadrados e capacidade para produzir cerca de 3 mil toneladas de polvo por ano, além de gerar aproximadamente 300 empregos.
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A empresa atribuiu a decisão a questões empresariais e regulatórias durante o processo de licenciamento. Segundo o El País, novas exigências administrativas alteraram condições, prazos e requisitos previstos inicialmente.
Com isso, o fim do projeto reacendeu uma discussão que acompanha as tentativas de produzir o animal em cativeiro: por que é tão difícil criar polvos em fazendas?
Polvo ainda desafia criação em escala
Até agora, nenhuma criação em grande escala do polvo-comum (Octopus vulgaris) conseguiu se consolidar comercialmente, segundo o britânico The Guardian.
Os obstáculos, porém, aparecem em diferentes etapas da produção. Os animais são naturalmente solitários, apresentam comportamento complexo e precisam de ambientes estimulantes.
Além disso, a fase inicial da vida é delicada. A alimentação, por sua vez, também representa um desafio para a produção industrial.
“Os polvos são animais extremamente inteligentes e complexos”, afirmou ao El País Elena Lara, pesquisadora da organização Compassion in World Farming.
Há ainda outra diferença em relação a várias espécies utilizadas na produção de alimentos. Segundo Lara, o polvo nunca passou por um processo de domesticação.
Nesse cenário, a discussão ganhou destaque neste mês em reportagem do The Guardian. O jornal britânico apresentou o dilema já no título: “Inteligente demais para comer?”
Três corações e sangue azul
Além das dificuldades de produção, a própria biologia do polvo ajuda a explicar por que o animal desperta tanto interesse.
Para começar, ele possui três corações. Dois atuam principalmente no envio de sangue às brânquias. Enquanto isso, o terceiro bombeia o sangue para o restante do organismo.
O sangue também tem uma característica incomum: é azul.
Nesse caso, a coloração está relacionada à hemocianina, proteína que contém cobre e participa do transporte de oxigênio. Nos seres humanos, por outro lado, essa função é desempenhada pela hemoglobina, que contém ferro.
Outra particularidade está no sistema nervoso. Grande parte dos neurônios do polvo fica distribuída pelos braços. Por isso, o animal consegue realizar movimentos e apresentar respostas complexas.
Na prática, cada braço consegue processar informações enquanto permanece conectado ao cérebro central.
Inteligência entra no debate
A capacidade cognitiva do polvo também está no centro das discussões sobre a criação intensiva.
Experimentos científicos mostraram que esses animais conseguem abrir recipientes, explorar objetos, encontrar caminhos e aprender com experiências.
Ao mesmo tempo, o The Guardian apontou a combinação de inteligência elevada, comportamento solitário e evidências de senciência entre as preocupações apresentadas por cientistas e organizações de bem-estar animal.
Dessa forma, a criação de vários indivíduos no mesmo ambiente impõe desafios diferentes daqueles encontrados na produção de espécies que vivem naturalmente em grupos.
Mercado movimenta bilhões
Apesar das dificuldades, existe interesse econômico na criação comercial.
O consumo mundial de polvos capturados na natureza gira em torno de 370 mil toneladas por ano, segundo dados citados pelo The Guardian.
Além disso, o mercado é particularmente relevante na Europa e na Ásia.
Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), reproduzidos pelo El País, mostram que os cefalópodes, grupo que inclui polvos, lulas e sépias, responderam por cerca de 7% das exportações mundiais de produtos aquáticos de origem animal em 2024.
Esse comércio movimentou aproximadamente US$ 12,7 bilhões naquele ano.
China, Marrocos e Mauritânia aparecem entre os grandes produtores de polvo capturado. Enquanto isso, Espanha, Itália, China e Japão estão entre mercados importantes para o produto.
Projeto acabou, pesquisa não
A desistência da fazenda nas Ilhas Canárias, porém, não significa, segundo a Nueva Pescanova, que futuros projetos sejam inviáveis.
A discussão envolve justamente a possibilidade de atender a um mercado consumidor relevante sem depender apenas da captura de animais na natureza.
“Queremos continuar comendo polvo?”, questionou ao El País Eduardo Almansa, pesquisador do Instituto Espanhol de Oceanografia que participou de pesquisas relacionadas ao projeto.
Segundo ele, a demanda mundial está aumentando e, por isso, existe interesse em encontrar alternativas capazes de produzir o alimento de maneira economicamente viável e sustentável.
Por enquanto, no entanto, a produção comercial em grande escala continua sendo um desafio. Apesar de anos de pesquisas, o polvo ainda não fez a transição da captura na natureza para as grandes fazendas de aquicultura.