Estudo avaliou 30 fatores de risco e mostra por que preço elevado, facilidade de adulteração e dificuldade de controle tornam o azeite vulnerável a fraudes
Vasilhas contendo azeite e azeitonas
Foto: Divulgação

Uma garrafa de azeite extravirgem pode parecer igual a outra na prateleira. Por dentro, porém, descobrir se o produto realmente corresponde ao que está escrito no rótulo pode exigir muito mais do que observar cor, cheiro ou consistência.

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Essa dificuldade ajuda a explicar por que o azeite está entre os produtos vulneráveis à fraude alimentar.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Applied Food Research analisou a cadeia do azeite na União Europeia e encontrou vulnerabilidade de moderada a alta a fraudes. Os pesquisadores avaliaram 30 fatores de risco, desde oportunidades para adulteração até incentivos econômicos e mecanismos de controle.

“O azeite tornou-se um alvo frequente de fraude alimentar”, afirmam os pesquisadores no estudo. O trabalho foi assinado por nove pesquisadores ligados a instituições como University College Dublin, BioCoS e National Research Council da Itália.

Por que o azeite chama a atenção dos fraudadores

A resposta começa no valor do produto. Um azeite extravirgem de boa procedência pode valer consideravelmente mais do que outros óleos vegetais. Portanto, existe um incentivo econômico para práticas capazes de transformar um produto mais barato em algo aparentemente mais valioso.

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Ao analisar os fatores de vulnerabilidade, os pesquisadores descobriram que as oportunidades responderam por 41,53%*, a maior contribuição entre as três categorias estudadas.

As motivações apareceram em seguida, com 27,10%. Já as medidas de controle representaram 14,52%. Segundo o estudo, dois elementos merecem atenção especial: a oportunidade tecnológica para realizar a fraude e a motivação econômica.

Além disso, os autores identificaram outro ponto crítico. “A atual cadeia do azeite carece de sistemas eficazes para prevenir a fraude alimentar”, destacam os pesquisadores.

Isso não significa que todo azeite seja suspeito. O resultado mostra, na verdade, que as características desse mercado criam condições que precisam de fiscalização, rastreabilidade e mecanismos de prevenção.

 Mistura com outros óleos está entre os problemas

A adulteração pode ocorrer de diferentes maneiras. Uma delas envolve misturar azeite com óleos vegetais de menor valor e comercializar o conteúdo como se fosse um produto de categoria superior. Também existem irregularidades relacionadas à origem, classificação e características declaradas no rótulo.

Foto: MAPA

Relatórios da Comissão Europeia mostram que autoridades continuam encontrando suspeitas desse tipo. Em abril de 2026, por exemplo, o sistema europeu registrou ocorrências envolvendo produtos declarados como azeite ou azeite extravirgem nos quais foram identificados outros óleos vegetais.

Em registros anteriores, as autoridades europeias chegaram a encontrar casos envolvendo óleo de girassol e óleos refinados em produtos apresentados como azeites de categorias superiores.

Entretanto, existe uma ressalva importante. Esses relatórios reúnem suspeitas de fraude e práticas enganosas comunicadas pelas autoridades. Uma notificação, isoladamente, não representa necessariamente uma condenação definitiva por fraude.

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 Origem do azeite também pode ser alvo

Nem sempre o problema está apenas no conteúdo da garrafa. A procedência também tem valor comercial.

Regiões tradicionais de Espanha, Itália, Grécia e outros países construíram reputação internacional na produção de azeites. Por isso, indicar uma determinada origem pode aumentar o valor percebido pelo consumidor.

Em janeiro de 2026, a rede europeia registrou uma suspeita de falsificação de origem envolvendo azeite extravirgem.

O mesmo relatório apresentou amostras comercializadas como extravirgens que acabaram classificadas como óleo lampante, uma categoria diferente daquela anunciada ao consumidor.

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 Europa encontrou falhas nos próprios controles

A preocupação ganhou ainda mais peso em 2026. O Tribunal de Contas Europeu analisou os sistemas de controle do azeite na União Europeia e concluiu que existe uma estrutura ampla de fiscalização, mas sua aplicação ainda ocorre de maneira desigual entre os países.

Os auditores avaliaram controles realizados na Bélgica, Grécia, Espanha e Itália. O sistema europeu busca garantir três características fundamentais: autenticidade, segurança e rastreabilidade.

Ainda assim, o tribunal apontou espaço para melhorar a supervisão e a aplicação das regras.

A questão é especialmente relevante porque a União Europeia ocupa uma posição dominante na cadeia mundial do azeite e reúne alguns dos maiores produtores do planeta.

Azeite fora do padrão não significa necessariamente fraude

Há uma diferença importante entre fraude e problema de qualidade. Um azeite pode perder características necessárias para permanecer na categoria extravirgem, por exemplo, sem que alguém tenha deliberadamente adulterado o produto.

Condições inadequadas de armazenamento, exposição à luz, oxigênio, temperatura e passagem do tempo podem prejudicar suas características.

A fraude pressupõe intenção de enganar para obter algum tipo de vantagem. Por isso, uma amostra que não atende aos parâmetros esperados não deve ser automaticamente tratada como produto falsificado.

 Dá para descobrir azeite falso em casa?

Esse é justamente um dos pontos que tornam o assunto complicado para o consumidor.

Não existe um teste doméstico simples e infalível capaz de comprovar que determinado azeite é autêntico ou confirmar sua classificação como extravirgem.

Colocar azeite na geladeira ou no congelador, observar apenas sua cor ou analisar se ele engrossa são práticas que circulam nas redes sociais, mas não substituem uma análise técnica.

O consumidor pode, entretanto, adotar alguns cuidados. Verificar procedência, informações do fabricante, origem e condições da embalagem ajuda na escolha. Preços muito abaixo daqueles praticados por produtos equivalentes também merecem atenção.

Além disso, a forma como a garrafa fica armazenada interfere na conservação do produto.

 Desafio começa no olival e termina na mesa

O estudo de 2026 mostra que combater a fraude não depende apenas de descobrir um produto adulterado depois que ele chegou ao supermercado.

É necessário acompanhar toda a cadeia. Produtores, fabricantes, varejistas e outros participantes foram incluídos na pesquisa justamente porque as vulnerabilidades podem aparecer em diferentes etapas.

Os autores concluíram que a ausência de sistemas de prevenção contra fraude representa uma ameaça crítica entre produtores, fabricantes e varejistas.

Foto: divulgação Abrazeite

Assim, quanto maior a diferença de preço entre categorias e origens, maior também a importância de rastrear o caminho percorrido pelo produto.

Para o consumidor diante da prateleira, todas as garrafas podem guardar um líquido aparentemente parecido.

Para descobrir exatamente o que está escondido dentro delas, porém, a ciência mostra que olhar apenas a aparência do azeite não basta.