Índice da FAO alcança maior nível desde 2022; problemas na produção brasileira ajudam a pressionar açúcar, enquanto clima e conflitos afetam outros alimentos
O pão é uma fonte de alimentação em muitas culturas desde a antiguidade
Foto: Embrapa/Joseani Mesquita Andrade

Os preços mundiais dos alimentos voltaram a subir e atingiram em agosto o maior nível em quase quatro anos. Desta vez, nenhum dos cinco grandes grupos acompanhados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) escapou da alta.

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Mas um produto chamou especialmente a atenção: o açúcar.

O índice internacional do açúcar avançou 11,9% em apenas um mês, alcançando o maior patamar desde junho de 2025. Problemas na produção do Centro-Sul do Brasil, principal região canavieira do país, estão entre os fatores que explicam o movimento.

Os novos números foram divulgados pela FAO nesta sexta-feira (4). O indicador geral chegou a 133,3 pontos em agosto, avanço de 1,9% diante dos 130,8 pontos revisados de julho.

Em relação ao mesmo período do ano passado, os alimentos estão 2,5% mais caros no mercado internacional.

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Açúcar dispara e Brasil entra na conta

Colheita mecanizada de cana na RMC
Foto: Embrapa/José Roberto Miranda

A alta do açúcar foi, de longe, o movimento mais expressivo entre os produtos acompanhados pela FAO.

Além da menor produção registrada no Centro-Sul brasileiro, as condições climáticas aumentaram as preocupações com a oferta na Europa e na Ásia.

A situação asiática merece atenção adicional porque a possibilidade de ocorrência de um El Niño severo aumenta a incerteza sobre a produção de açúcar e de óleo de palma.

No Brasil, qualquer mudança significativa na oferta de açúcar possui reflexos internacionais. O país ocupa posição de destaque na produção e nas exportações mundiais do produto.

Por isso, problemas nas lavouras brasileiras podem rapidamente chegar às cotações internacionais.

Não foi apenas o açúcar que ficou mais caro

Colheita de alimentos em Moçambique
Foto: FAO/María Legaristi Royo

O Índice de Preços dos Alimentos da FAO acompanha cinco grandes grupos: cereais, óleos vegetais, carnes, lácteos e açúcar.

Todos subiram em agosto.

Os cereais avançaram 2,2% na comparação mensal e atingiram o maior nível desde maio de 2024. A combinação entre demanda elevada, problemas climáticos em regiões produtoras e incertezas sobre as exportações pelo Mar Negro pressionou as cotações.

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Os óleos vegetais também subiram. O índice teve avanço de 0,6% e alcançou seu maior patamar desde junho de 2022.

Além disso, carnes e produtos lácteos registraram aumento durante o mês.

O resultado mostra que a pressão não está concentrada em um único alimento ou região produtora.

Calor e seca atingem lavouras na Europa

Foto: Seapa/MG

Parte da explicação está no clima.

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Calor extremo e seca afetaram perspectivas agrícolas na Europa, principalmente para culturas como milho e beterraba açucareira.

A pecuária também sofreu os efeitos das temperaturas elevadas.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de um El Niño intenso aumentou a preocupação com a produção agrícola asiática.

Esses fatores aparecem justamente em um momento no qual conflitos e dificuldades logísticas também interferem no mercado internacional.

Guerra também pressiona preço dos alimentos

Os problemas não terminam nas lavouras.

A intensificação dos ataques na região do Mar Negro prejudicou os embarques de grãos da Rússia e da Ucrânia, dois importantes participantes do comércio agrícola mundial.

A incerteza sobre o fluxo desses produtos ajudou a elevar as cotações dos cereais.

Outro ponto de atenção está nos fertilizantes.

Segundo a FAO, o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã passou a pressionar os fluxos de fertilizantes utilizados na agricultura.

Quando problemas climáticos, conflitos e dificuldades logísticas acontecem simultaneamente, o mercado tende a incorporar um risco maior aos preços.

FAO faz alerta sobre mercado mundial

O economista-chefe da FAO, Maximo Torero, chamou atenção para essa combinação de fatores.

Segundo ele, a alta de agosto funciona como um alerta de que o chamado “prêmio de risco” está retornando aos mercados de alimentos.

Torero destacou que choques climáticos, tensões geopolíticas e problemas na logística comercial estão convergindo e aumentando as preocupações sobre a oferta.

O cenário aparece justamente quando as cotações de algumas commodities voltam a níveis que não eram registrados há anos.

Apesar disso, o indicador geral ainda permanece distante do recorde histórico.

Os 133,3 pontos registrados em agosto estão 16,8% abaixo do pico alcançado em março de 2022, período marcado pelo início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Produção mundial de cereais também é reduzida

Plantação de Sorgo
Foto: FAO/Mahmoud Shamrouk

Outra notícia divulgada pela FAO aumentou a atenção sobre o mercado.

A organização reduziu em 3,4 milhões de toneladas sua projeção para a produção mundial de cereais em 2026.

A nova estimativa aponta para 2,980 bilhões de toneladas.

Se confirmada, a produção ficará 2% abaixo da registrada em 2025, representando a maior queda anual desde 2018.

Ainda assim, há uma diferença importante: mesmo com a redução, o volume previsto seria o segundo maior da história.

Ou seja, os números não indicam ausência generalizada de alimentos no planeta. Eles mostram, porém, que as expectativas de oferta ficaram menos confortáveis diante de uma combinação incomum de riscos.

Estoques também entram no radar

A FAO também revisou para baixo a previsão dos estoques mundiais de cereais ao final da temporada 2026/2027.

A estimativa ficou em 947,2 milhões de toneladas, redução de 1,1% em relação à projeção anterior.

Os estoques ainda devem ficar ligeiramente acima da temporada passada.

Por outro lado, a composição chama atenção. A expectativa menor para os estoques de grãos secundários superou a revisão positiva feita para o trigo.

No caso do trigo, parte do aumento previsto nos estoques de Rússia e Ucrânia ocorre justamente porque problemas nos embarques dificultam a saída dos grãos.

Alta internacional chega imediatamente ao supermercado?

Imagem mostra bancada de frutas em um mercado
Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

Não necessariamente.

O índice da FAO acompanha os preços internacionais de commodities alimentares negociadas mundialmente. Portanto, uma alta de 11,9% no indicador do açúcar não significa que o pacote encontrado no supermercado brasileiro ficará automaticamente 11,9% mais caro.

Entre a commodity e a prateleira existem câmbio, estoques, transporte, processamento, impostos, contratos e margens comerciais.

Ainda assim, movimentos persistentes nas cotações internacionais podem chegar aos consumidores ao longo do tempo.

Por enquanto, o sinal mais importante vem do conjunto dos dados.

Depois de um período de maior acomodação, todos os grandes grupos de alimentos acompanhados pela FAO ficaram mais caros ao mesmo tempo.

E, em agosto, o açúcar foi o produto que deu o salto mais expressivo.