Resumo da notícia
- O Brasil projeta uma safra recorde de 356 milhões de toneladas em 2025/26, mas só consegue armazenar 70%, gerando déficit estrutural de 139 milhões de toneladas e perdas econômicas significativas.
- A capacidade de armazenagem nacional cresceu pouco e é concentrada, especialmente em Mato Grosso, mas estados como Rondônia e MATOPIBA enfrentam déficit acima de 60%, afetando a logística e o escoamento da produção.
- O governo, por meio da Conab, planeja modernizar silos, formar estoques reguladores e fortalecer políticas públicas para reduzir perdas e ampliar a capacidade de armazenagem, apesar dos altos custos de investimentos.
O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, reuniu-se nesta quinta-feira (28) com a diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para alinhar ações estratégicas nas áreas de armazenagem, estoques públicos e abastecimento alimentar.

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Foto: Percio Campos / Mapa
A agenda envolveu modernização da infraestrutura de silos, formação de estoques reguladores, acompanhamento da safra de grãos, preços mínimos, seguro rural e cooperação humanitária internacional. Tudo isso num cenário em que o Brasil enfrenta um déficit estrutural de capacidade de armazenagem estimado em 139 milhões de toneladas.
Um país que colhe mais do que consegue guardar
O Brasil projeta colheita superior a 356 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo a própria Conab, o maior volume já registrado. O problema: a capacidade estática nacional atingiu 213 milhões de toneladas, crescimento de apenas 0,5% em relação a 2024, ritmo insuficiente frente ao avanço da produção de soja e milho, que cresce cerca de 6% ao ano desde 2010.
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O resultado é uma equação desfavorável: o Brasil só tem capacidade de armazenar 70% da colheita. Nos Estados Unidos, esse percentual varia entre 130% e 140%. Os americanos possuem capacidade de 615 milhões de toneladas, quase três vezes maior, com 65% dos silos dentro das fazendas. No Brasil, apenas 17% das estruturas ficam em propriedades rurais, o que aumenta a dependência de armazéns externos e pressiona a logística.
Geografia
O déficit não é apenas de volume, mas também geográfico. O Mato Grosso concentra a maior capacidade individual do país, com 52 milhões de toneladas, mas ainda sofre com um déficit de 51% em relação à produção de soja e milho. Em estados como Rondônia, a carência chega a 75%. No MATOPIBA, uma das principais fronteiras agrícolas, o déficit alcança até 60%, obrigando produtores a escoarem rapidamente a safra por falta de estruturas próximas.
As consequências vão além da logística. Cerca de 10% da produção nacional de grãos é perdida durante o armazenamento, segundo a Embrapa. Ao preço médio da soja em março de 2026, esse volume representa algo próximo de R$ 14 bilhões que deixam de circular na economia.E só em ICMS, cerca de R$ 1,6 bilhão deixam de entrar nos cofres públicos.
Fechar esse buraco tem preço. Para eliminar o déficit de 92 milhões de toneladas identificado pelo Itaú BBA, seriam necessários R$ 102 bilhões em investimentos. O custo de construção de silos também encareceu: subiu de R$ 700 por tonelada em 2019 para cerca de R$ 1.100 por tonelada em 2025.
O que o governo faz para enfrentar o problema
Na reunião desta quinta, André de Paula destacou o papel central da Conab na formulação de políticas públicas. “A Conab continua sendo a principal responsável pelos levantamentos de safra, custos de produção, estoques públicos e perspectivas para a agropecuária, informações que servem de base para a construção das políticas do Ministério”, afirmou.
O secretário-executivo do Mapa, Cleber Soares, reforçou o papel operacional da companhia em subvenções econômicas, aquisições públicas e equalização de preços. “Quando o mercado apresenta distorções que prejudicam tanto o produtor quanto o consumidor, é a Conab que atua para garantir maior equilíbrio na cadeia produtiva”, disse.
Atualmente, os armazéns da Conab têm capacidade estática próxima de 1,7 milhão de toneladas, com cerca de 1,2 milhão de toneladas armazenadas. A companhia trabalha na modernização dessa infraestrutura e na ampliação da capacidade operacional da rede armazenadora federal.
Medidas
Entre as medidas concretas discutidas no encontro, está a liberação de R$ 54,3 milhões em crédito suplementar pela Casa Civil. O recurso viabiliza a antecipação da compra de milho e a formação de estoques reguladores preventivos diante dos possíveis impactos do El Niño em 2026. No Plano Safra 2025/26, o governo também destinou R$ 4,5 bilhões para o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), com juros entre 8,5% e 10% ao ano. Embora especialistas do setor avaliem que taxas ideais estariam entre 6% e 6,5% ao ano, próximas às praticadas nos Estados Unidos.
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O diretor-presidente da Conab, Sílvio Isoppo Porto, ressaltou a importância do diálogo entre os dois ministérios. “A construção da política agrícola brasileira se dá de forma conjunta entre o Mapa e o MDA, especialmente na definição dos Planos Safra e nas ações de suporte ao produtor rural”, disse.
A pauta incluiu ainda a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) para a safra de verão, o Seguro Rural e o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). A Conab também apresentou sua atuação em operações de ajuda humanitária internacional, com o envio de arroz e leite em pó para a Bolívia e ações de assistência alimentar a Cuba.