Resumo da notícia
- Microplásticos foram encontrados em rios, igarapés e lagos da Amazônia e no organismo de peixes, afetando tanto o trato digestivo quanto as brânquias, essenciais para a respiração dos animais.
- O pirarucu, importante para comunidades locais, corre risco maior pois sua respiração aérea pode fazer com que microplásticos penetrem em seu órgão respiratório, causando obstruções e inflamações.
- Igarapés urbanos apresentam concentrações elevadas de microplásticos, como em Manaus, onde foram registrados até 74.550 partículas por metro cúbico, agravando a poluição em áreas próximas a cidades.
A poluição por plástico já chegou a diferentes ambientes da Amazônia. Uma pesquisada realizada pela Agência Pública mostra que microplásticos estão presentes em rios, igarapés e lagos da região e já foram encontrados no organismo de peixes.
O problema vai além da presença das partículas na água. Dependendo da espécie e do ambiente, os resíduos podem ser ingeridos junto com os alimentos ou ficar presos nas brânquias, estruturas fundamentais para a respiração dos animais.
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Microplástico chega às brânquias e ao sistema digestivo
Um dos levantamentos analisou peixes das bacias dos rios Guamá e Acará-Capim, no Pará. Os pesquisadores encontraram partículas plásticas nas brânquias e no trato digestivo de praticamente todos os animais avaliados.
Ao todo, foram identificadas 383 partículas, com uma média de 5,6 partículas por peixe. A contaminação também apareceu em espécies com hábitos alimentares diferentes, incluindo predadores.
O resultado chama atenção porque mostra que o problema não está restrito aos peixes que vivem no fundo ou se alimentam de sedimentos. As partículas podem circular pela cadeia alimentar e chegar a diferentes espécies.
Além disso, o contato com as brânquias pode provocar danos físicos e interferir na respiração e no funcionamento do sistema imunológico dos animais.
Pirarucu enfrenta um risco ainda mais particular
Entre as espécies amazônicas, o pirarucu apresenta uma característica que aumenta a preocupação dos pesquisadores.
O peixe consegue respirar diretamente o ar atmosférico graças a uma bexiga natatória modificada, que funciona de maneira semelhante a um pulmão. Em ambientes com pouco oxigênio, ele precisa subir à superfície para respirar.

Segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem, essa adaptação pode aumentar o contato do animal com microplásticos que ficam próximos à superfície da água. Em determinadas condições, as partículas poderiam entrar no órgão responsável pela respiração aérea e provocar obstruções ou processos inflamatórios.
Igarapés podem concentrar mais poluição
Embora os grandes rios tenham enorme volume de água, isso não significa que estejam livres da contaminação.
Nos rios Amazonas, Negro, Tapajós e Tocantins, monitoramentos encontraram concentrações consideradas baixas em alguns pontos. Já igarapés próximos a áreas urbanas podem apresentar condições mais preocupantes, especialmente quando recebem esgoto e lixo descartado de maneira irregular.
Em Manaus, por exemplo, pesquisas já registraram concentrações de até 74.550 microplásticos por metro cúbico em igarapés urbanos.
O comportamento das águas amazônicas também influencia a distribuição das partículas. Durante o período de cheia, os rios conectam áreas de várzea e florestas inundáveis, facilitando o transporte dos poluentes. Na seca, por outro lado, os microplásticos podem ficar mais concentrados em canais, sedimentos e ambientes isolados.
Plástico também aparece no fundo dos rios
A contaminação não fica apenas na superfície.
Um dos casos estudados é o do tamoatá, peixe que vive próximo ao fundo de lagos e áreas de várzea e se alimenta de detritos presentes nos sedimentos. Esse comportamento pode aumentar a exposição às partículas que se acumulam no leito dos ambientes aquáticos.
No sedimento do rio Negro, a concentração de microplásticos foi estimada em aproximadamente 13 milhões de partículas por metro cúbico.
Experimentos com o tamoatá também indicaram que pequenas quantidades de microplásticos na alimentação podem estar associadas a aumento do estresse e perda de peso. Os pesquisadores destacam, porém, que ainda são necessários estudos para compreender como esses efeitos acontecem em diferentes espécies e condições ambientais.
Contaminação preocupa também a pesca
O problema ganha uma dimensão ainda maior quando considerado o papel do pescado na alimentação amazônica.
No Amazonas, uma pessoa consome, em média, cerca de 14 quilos de peixe por ano, aproximadamente cinco vezes a média nacional de 2,8 quilos. Em comunidades ribeirinhas, esse consumo pode ser ainda maior.
Por isso, a presença de microplásticos nos peixes desperta preocupação tanto pela conservação das espécies quanto pela segurança alimentar das populações que dependem da pesca.
Os pesquisadores ressaltam que ainda não existem dados suficientes para determinar qual é o impacto do consumo de peixes amazônicos contaminados por microplásticos sobre a saúde humana. A possibilidade de exposição pela alimentação, entretanto, é considerada plausível.
O que ainda precisa ser descoberto
A Amazônia abriga mais de 3 mil espécies de peixes, e os cientistas ainda conhecem pouco sobre os efeitos específicos dos microplásticos em grande parte delas.
Além da ingestão, os pesquisadores querem entender como as partículas se movimentam entre rios, lagos, igarapés e áreas de várzea. A dinâmica das cheias e secas, o tipo de água e até a presença de plantas aquáticas podem alterar a distribuição desses resíduos.
Assim, o avanço das pesquisas será fundamental para medir o impacto da poluição sobre a biodiversidade, a pesca e os ecossistemas amazônicos.