A tempestade perfeita que quebrou o mercado europeu de batata frita
Foto: Paulo Lanzetta/Embrapa

A Europa enfrenta um excedente de 5 milhões de toneladas métricas de batatas para processamento industrial. E o resultado é uma crise sem precedentes para agricultores do continente. Na Bélgica, maior exportadora mundial de batatas fritas congeladas, o preço no mercado à vista chegou a zero por uma tonelada. Há apenas três anos, o mesmo volume valia quase 600 euros.

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A situação forçou produtores a tomar uma decisão inimaginável: despejar suas safras de volta nos campos. É a alternativa mais barata para se livrar de toneladas de batatas que ninguém quer comprar.

Uma tempestade perfeita de fatores

O colapso do mercado resulta de múltiplas crises simultâneas. O bom tempo europeu gerou a maior colheita de batatas em oito anos. Mas justamente quando as exportações do continente sofriam ataques em várias frentes.

As tarifas impostas pelo governo Trump encareceram as batatas fritas europeias nos Estados Unidos, segundo maior mercado do setor depois do Reino Unido. As exportações de batatas fritas congeladas da União Europeia para os americanos caíram 8% nos 12 meses encerrados em fevereiro de 2025, segundo a revista especializada World Potato Markets. No mesmo período, as vendas para a Arábia Saudita, terceiro maior mercado, recuaram 11%.

A guerra no Irã aprofundou o problema. O conflito elevou os preços de energia e fertilizantes, encareceu a refrigeração e o transporte, e bloqueou o estreito de Hormuz, impedindo navios de fertilizantes de deixar o Golfo Pérsico e dificultando exportações para Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Com menos turistas nos resorts e consumidores cortando gastos em restaurantes por causa da inflação, a demanda por batatas fritas recuou em toda a região.

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Concorrência asiática pressiona margens já apertadas

O setor enfrenta ainda um novo competidor: China, Índia e Egito começaram a exportar batatas fritas congeladas a preços muito inferiores aos europeus. O volume ainda é menor que 10% do que a Europa exporta, mas dobrou em um único ano.

A situação se agrava porque produtores europeus operam sob regulamentações ambientais e de uso de defensivos muito mais rígidas do que concorrentes de outras regiões. Agrotóxicos proibidos na Europa há mais de uma década ainda têm uso livre em países como Índia e China, o que distorce a competição.

“Não estamos no mesmo nível”, afirma um vice-presidente da associação comercial Belpotato. “Quando exportamos para mercados que não têm as mesmas restrições que nós, a concorrência não é justa.”

O crescimento global da demanda por batatas fritas congeladas, que chegou a 5% ao ano há cinco anos, desacelerou para 2,5% ao ano atualmente, segundo a World Potato Markets.

Distribuição gratuita e campos cheios

Na Alemanha, outro grande produtor, agricultores com milhares de toneladas sem comprador organizaram distribuições gratuitas em Berlim. Os moradores locais batizaram o fenômeno de Kartoffel-Flut — inundação de batatas.

Na Bélgica, o prejuízo se acumula em solo, mudas, fertilizantes e mão de obra. Produtores que não conseguiram garantir contratos de longo prazo antecipadamente estão expostos à queda livre dos preços. E quem tem contratos plurianuais pode enfrentar reajustes para baixo nas próximas renovações.

Exportações bilionárias em risco

A Bélgica exportou US$ 3,3 bilhões em batatas cozidas e congeladas em 2025, quase o triplo do valor registrado uma década antes, segundo o Eurostat. Manter esse ritmo agora parece improvável.

“Isso nos prejudica”, diz o CEO da Belgapom, associação belga de processamento de batatas, “especialmente em um setor que opera com margens pequenas.”

As importações de batatas fritas europeias no Oriente Médio como um todo caminham para uma queda de dois dígitos desde o início do conflito iraniano, estima Cedric Porter, editor da World Potato Markets.

Mesmo analistas mais otimistas reconhecem que o horizonte é difícil. “Se você tem um restaurante com margens apertadas e precisa de batatas fritas”, diz Porter, “vai buscar a opção de melhor custo-benefício”. E os produtores europeus raramente são essa opção agora.

Para muitos agricultores da região, o cenário levanta uma dúvida difícil: se a próxima geração ainda vai querer herdar as fazendas da família.