Animais valorizados na culinária e na medicina tradicional chinesa saem do Brasil escondidos em malas e podem gerar desequilíbrio ecológico na costa
epinos-do-mar secos apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos
Foto: Fabio Porto-Foresti

Malas e caixas cruzam diariamente os terminais dos aeroportos brasileiros com produtos ilegais. Substâncias entorpecentes ocupam boa parte dessas apreensões, mas eletrônicos, medicamentos e até animais silvestres também compõem a bagagem de quem tenta driblar a fiscalização.

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Foto: Fabio Porto-Foresti

Entre os itens exportados ilegalmente estão os pepinos-do-mar, invertebrados marinhos presentes ao longo de toda a costa brasileira. Pequenos o bastante para caber na palma da mão, esses animais figuram como iguaria tradicional na culinária asiática e na medicina chinesa. Condição que alimenta um mercado clandestino voltado à exportação.

Um estudo do Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe), da Unesp de Bauru, publicado na revista Scientific Reports, comprovou a origem brasileira de espécimes apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), o maior da América Latina. A equipe usou marcadores genéticos para identificar as espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus e rastrear sua procedência até o litoral sudeste do país. Um achado que configura crime ambiental e acende alerta sobre a biodiversidade costeira.

Comércio ilegal pode reduzir populações da espécie

O planeta abriga cerca de 1.250 espécies de pepino-do-mar, das quais 40 ocorrem em território brasileiro. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica as duas espécies do estudo como de “Menor Preocupação”, classificação que, segundo os pesquisadores, não elimina o risco da exploração comercial.

Fabio Porto-Foresti, professor da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp e coordenador do Lagenpe, teme que o Brasil repita o cenário já registrado na China, onde a exploração intensa reduziu populações inteiras de pepino-do-mar. “O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma que é transportado, permite que se leve uma grande quantidade nas bagagens”, afirma o pesquisador. “Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie.”

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Pepinos-do-mar sendo vendidos em uma feira popular na cidade de Chongqing, no sudoeste da China
Pepinos-do-mar sendo vendidos em uma feira popular na cidade de Chongqing, no sudoeste da China. Foto: Ricardo Utsunomia

Ricardo Utsunomia, codocordenador do Lagenpe, chama atenção para a função ecológica desses animais. “O pepino-do-mar fica no fundo do oceano extraindo e ingerindo matéria orgânica. A retirada deles de forma intensiva e em tão pouco tempo causa um desequilíbrio ecológico muito grande”, explica.

O padrão de exploração lembra o comércio de barbatanas de tubarão: produtos não perecíveis, fáceis de armazenar e transportar, e por isso difíceis de fiscalizar. Sem controle adequado, os pesquisadores projetam que a demanda por pepinos-do-mar pode levar a quedas populacionais semelhantes às que atingiram várias espécies de tubarão.

“Código de barras” genético identifica espécies descaracterizadas

A pesquisa nasceu de uma parceria de longa data entre o Lagenpe e o Ibama, iniciada em 2015 com um projeto sobre o tráfico de peixes-de-bico no mesmo aeroporto. Desde então, o laboratório ampliou as análises para nadadeiras de tubarão, bexigas natatórias e, mais recentemente, pepinos-do-mar.

O estudo atual, financiado pela Fapesp, partiu de espécimes secos apreendidos em 2023, distribuídos em caixas e malas com cerca de 500 indivíduos cada. Os pesquisadores selecionaram 40 amostras para análise molecular: 18 pertenciam à Holothuria grisea e 22 à Isostichopus badionotus.

Como os animais chegam cortados, secos e sem características morfológicas reconhecíveis, a identificação depende de análise laboratorial. A equipe extrai o DNA das amostras, realiza amplificação por PCR e compara o resultado com o Barcode of Life Data System (BOLDSystems), banco de dados genético usado mundialmente para identificação de espécies. “A gente busca um marcador, que nada mais é do que um ‘código de barras’ do DNA. Então, comparamos o sequenciamento com um banco de dados disponível”, descreve Porto-Foresti.

Obstáculo

A equipe enfrentou um obstáculo: o banco de dados não continha o sequenciamento da H. grisea. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores recorreram a Rogério Caetano da Costa, professor de zoologia de invertebrados da FC-Bauru e coautor do artigo, que estuda a fauna de Ubatuba há décadas. Com sua ajuda, a equipe coletou exemplares vivos na praia e comparou o material genético com o dos animais apreendidos.

“Percebemos que eles eram iguais. Esse trabalho comprova que aqui não é uma zona intermediária de tráfico, realmente os animais estão sendo coletados na costa”, relata Utsunomia. O achado reforça a importância de ampliar os bancos de dados genéticos públicos, sem os quais estudos de identificação molecular perdem viabilidade.

Caetano da Costa relatou ainda uma percepção, ainda não comprovada cientificamente, de queda na população de pepinos-do-mar no costão rochoso de Ubatuba, possivelmente ligada ao avanço da pesca ilegal. No Ceará, esse declínio já tem respaldo científico: um estudo publicado em 2019 na revista Ocean and Coastal Management estimou a captura de quase 400 mil espécimes de H. grisea por ano nos municípios de Camocim e Xavier.

Mercado ilegal movimenta valores altos e escapa da fiscalização

A dificuldade de rastrear o volume real do tráfico decorre também da forma como os traficantes transportam os animais: junto a celulares, componentes eletrônicos e outros produtos de informática. Frescos, os pepinos-do-mar pesam cerca de 500 gramas, mas perdem até 90% do peso no processo de secagem. O que facilita o transporte de grandes quantidades em uma única mala.

pepino-do-mar numa mão
Foto: Ricardo Utsunomia

O valor comercial explica o apelo do contrabando: o mercado internacional paga até 400 euros por quilo do produto seco, com espécies raras chegando a cinco mil dólares.

No Brasil, a Portaria Ibama nº 93/1998 regulamenta a pesca e a comercialização de pepinos-do-mar, exigindo comprovação de origem ambiental e documentação legal. A parceria entre Lagenpe e Ibama busca expor essa lacuna de fiscalização, que não se limita à espécie estudada.

“De repente, poderia ser um ouriço-do-mar, uma estrela-do-mar ou uma bexiga natatória. O objetivo maior desse projeto é pensar nesse comércio que vem acontecendo e que não conseguimos identificar a espécie do ponto de vista morfológico”, afirma Porto-Foresti. “Com o marcador genético, vai ser possível ver exatamente qual espécie está sendo comercializada, seja para pepino-do-mar, peixe, camarão ou outros grupos. Essa é a grande questão.”

Fonte: Jornal da Unesp/