Além das normas da Igreja Católica, a bebida precisa seguir a legislação brasileira de produção de vinhos

O vinho usado na celebração da Eucaristia segue regras específicas da Igreja Católica. Conhecido como vinho de missa ou vinho canônico, ele precisa ser natural, fruto da videira, puro e sem substâncias estranhas, conforme o Direito Canônico. No Brasil, os produtores também seguem as normas que regulamentam a fabricação de vinhos.

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A tradição acompanha a própria história das celebrações católicas e também influenciou a produção de algumas vinícolas brasileiras. Por isso, além de atender às exigências religiosas, os fabricantes precisam adaptar processos, ingredientes e características da bebida às normas nacionais.

O Código de Direito Canônico determina que o vinho destinado à Eucaristia seja natural, puro e produzido a partir da uva. Além disso, a Igreja orienta os produtores a conservar a bebida adequadamente para manter sua validade litúrgica. No Brasil, por sua vez, os produtores seguem as regras do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A legislação classifica como vinho licoroso aquele que apresenta teor alcoólico de 14% a 18% em volume. A elaboração pode incluir ingredientes previstos na legislação, como álcool etílico potável de origem agrícola, mosto concentrado e açúcar.

Vinho de missa pode ser branco ou rosado?

O vinho tinto aparece tradicionalmente nas celebrações por causa da coloração. Entretanto, os documentos litúrgicos não determinam uma cor obrigatória. Na Adega Chesini, em Farroupilha (RS), o enólogo Ricardo José Chesini explica que a vinícola produz uma versão rosada com uva Isabel.

“O vinho, claro, precisa lembrar na liturgia o sangue e ter uma cor semelhante. A versão rosada tem muita preferência nas igrejas”, afirma.

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Além disso, os religiosos também podem utilizar vinho branco. Frei José, da Vila Capuchinhos, em Vila Flores (RS), explica que o Direito Canônico não determina uma coloração específica.

“Há regras para fazer o vinho no Direito Canônico, mas não sobre a coloração. A regra é que seja puro e digo mais, que seja um álcool produzido da própria uva. A questão da cor traz na celebração do sangue de Cristo, e, quanto mais para o vermelho, melhor, mas se for branco, não é problema”, explica.

Como o vinho de missa é produzido no Brasil?

A União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra) informa que não existem dados oficiais específicos sobre a produção e a comercialização nacional do vinho de missa, porque a bebida entra na mesma classificação de outros vinhos. O Rio Grande do Sul concentra parte importante dessa produção. A Salton, de Bento Gonçalves, produz a bebida e informa que Antonio “Nini” Salton desenvolveu o vinho litúrgico em 1920, em parceria com o pároco da cidade. Segundo Gregório Salton, enólogo e diretor técnico, cerca de 80% da produção segue para igrejas.

“A cada certo tempo, em média cinco anos, uma nova solicitação deve ser feita e submetida à Igreja. É importante destacar também que somente vinhos com autorização podem receber a inscrição ‘especial para missa’ no rótulo”, afirma.

Na Adega Chesini, a produção começou na década de 1970. Segundo Ricardo Chesini, seu avô iniciou a fabricação depois que um bispo questionou a ausência da bebida na vinícola. Atualmente, a empresa produz cerca de 40 mil litros por ano de vinho de missa rosado. A vinícola utiliza uva Isabel e deixa as cascas da uva tinta em contato com o mosto até atingir a tonalidade desejada. Depois, retira as cascas e continua a fermentação.

Produção também mantém tradição religiosa

A Cave dos Frades, em Vila Flores (RS), também produz vinho de missa com uva Isabel. Segundo Frei José, a vinícola elabora uma versão rosada, doce e licorosa, com 16% de teor alcoólico. A produção começou em 1949, após a inauguração de um seminário ligado aos frades capuchinhos. Na época, os religiosos utilizavam o cultivo das videiras para ajudar no próprio sustento.

Atualmente, a Cave dos Frades produz cerca de 40 mil litros por ano, de acordo com Frei José.

“Adicionamos uma quantia de açúcar, e ele fica três anos no reservatório grande, e esse açúcar vai se transformando internamente. Não chega a ser uma fermentação. Esse açúcar se transforma em álcool. O vinho fica suave, com aquele sabor docinho e com alto teor de álcool”, explica.

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