Estudo da Embrapa identifica causa do corte negro e aponta temperatura, ponto de colheita e tratamentos capazes de reduzir o problema.
Manga cortada apresenta escurecimento da polpa próximo à semente causado por injúria pelo frio
Foto: Sérgio Tonetto de Freitas/Embrapa

Pesquisa conduzida durante três anos pela Embrapa Semiárido (PE) confirmou que a exposição ao frio pode provocar o escurecimento interno de mangas suscetíveis durante o armazenamento e o transporte refrigerado. O problema compromete a qualidade da fruta e pode gerar perdas para produtores e exportadores.

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A Embrapa avança na identificação dos lotes com maior predisposição ao escurecimento da polpa antes mesmo da exportação
A Embrapa avança na identificação dos lotes com maior predisposição ao escurecimento da polpa antes mesmo da exportação. Foto: Fernanda Birolo/Embrapa

Conhecido como corte negro (black flesh), o distúrbio fisiológico escurece a polpa, principalmente na região próxima à semente. O defeito apresenta uma dificuldade adicional: a manga pode manter a aparência normal por fora e revelar o problema somente depois de cortada.

Os pesquisadores constataram maior risco em frutos suscetíveis colhidos em estágios menos avançados de maturação e submetidos a baixas temperaturas.

“O setor já suspeitava que havia uma relação entre a temperatura e o aparecimento dessa forma de escurecimento de polpa, mas ainda faltavam evidências científicas para comprovar essa associação. Demonstramos que esse distúrbio é uma forma de injúria por frio e que é possível adotar estratégias eficientes para reduzir sua ocorrência”, afirma o pesquisador Sérgio Tonetto, da Embrapa Semiárido, responsável pelo estudo.

A pesquisa também apontou alternativas para diminuir a ocorrência do problema. Entre elas estão a escolha do ponto de colheita, o manejo da cadeia de frio, o uso de atmosfera controlada e a aplicação de 1-metilciclopropeno (1-MCP), regulador de crescimento que inibe a ação do etileno, hormônio relacionado ao amadurecimento dos frutos.

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Problema aparece durante transporte refrigerado

O escurecimento não ocorre no campo nem no momento da colheita. Ele se desenvolve durante o armazenamento e o transporte refrigerado, justamente uma etapa importante para as exportações brasileiras.

Mais de 90% das exportações brasileiras de manga são provenientes do Vale do São Francisco. Para chegar a mercados da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia, as frutas podem permanecer várias semanas em contêineres refrigerados.

Segundo Tonetto, a ausência de sinais externos dificulta a identificação do problema.

“O consumidor compra uma manga aparentemente perfeita e o problema só é percebido quando ela é cortada. Isso compromete a experiência de consumo e a confiança do público, gerando prejuízos para toda a cadeia produtiva”, diz.

Foto: Fernanda Birolo/Embrapa

No destino, os contêineres passam por inspeções de qualidade que analisam características como firmeza da polpa e presença de desordens fisiológicas internas.

“Quando a ocorrência desses problemas ultrapassa o limite estabelecido pelos importadores (geralmente de 10% das frutas avaliadas), toda a carga pode ser rejeitada”, explica o pesquisador.

O problema também afeta empresas que processam frutas. A Blue Skies produz fresh cut, frutas frescas cortadas e prontas para consumo, e processa mangas no Brasil e em países da África para abastecer o mercado europeu.

“Quando isso acontece, o consumidor rejeita o produto, os supermercados reclamam e, quando o problema é identificado dentro da fábrica, perdemos a fruta antes mesmo do processamento. Então, é um impacto alto para a empresa”, afirma Daniel Petrovitch, gerente da companhia.

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Temperatura faz diferença no escurecimento

Os pesquisadores realizaram experimentos com mangas Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt produzidas em pomares comerciais com histórico do distúrbio.

Uma das estratégias identificadas foi evitar a colheita de frutos ainda muito verdes. Segundo os resultados, essas mangas apresentam maior sensibilidade às baixas temperaturas e maior predisposição ao escurecimento.

A temperatura de armazenamento também apresentou influência direta.

Nos experimentos, temperaturas entre 8 °C e 10 °C favoreceram o aparecimento do problema. Frutos dos mesmos lotes mantidos a 12,5 °C não apresentaram sintomas de escurecimento da polpa.

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A Blue Skies já adotou mudanças baseadas nos resultados. A empresa passou a armazenar mangas acima de 10 °C e concentrou a colheita no segundo estágio de maturação, em vez de colher os frutos no primeiro estágio.

“O estudo trouxe respostas para um problema que o setor enfrentava há anos. Hoje a Embrapa deu uma base científica e técnica para definir o ponto de colheita e a temperatura de armazenamento, e isso ajudou a reduzir significativamente as perdas”, destaca Petrovitch.

Atmosfera controlada e 1-MCP reduzem o problema

Outra alternativa estudada envolve contêineres de atmosfera controlada. Eles mantêm baixos níveis de oxigênio para reduzir a respiração e o metabolismo das frutas durante viagens prolongadas.

Os pesquisadores também avaliaram o uso do 1-MCP para controlar o escurecimento da manga. O composto já é utilizado para retardar o amadurecimento de frutas, mas, segundo a pesquisa, esta foi a primeira avaliação científica de seu uso contra esse distúrbio.

O tratamento reduziu a incidência e a severidade do problema e ajudou a preservar a firmeza e a capacidade antioxidante das frutas durante o armazenamento refrigerado.

Nas cultivares Tommy Atkins e Keitt, a incidência do escurecimento chegou perto de 100% entre os frutos não tratados depois de 45 dias armazenados a 9 °C. Com aplicação de 200 nanolitros por litro (nL/L ou ppb) de 1-MCP, o índice ficou abaixo de 60%.

“O resultado mais interessante foi constatar que a menor dose testada apresentou praticamente a mesma eficiência das concentrações mais elevadas. Isso reduz significativamente o custo da aplicação e aumenta a viabilidade econômica da tecnologia para o setor exportador”, destaca Tonetto.

Segundo o pesquisador, produtores podem combinar as estratégias conforme o mercado de destino, o período de transporte e as características de cada lote.

Exportadores já mudaram o manejo

Na Agrodan, empresa do Vale do São Francisco que produz e exporta mais de 32 milhões de quilos de manga por ano, os resultados também provocaram mudanças.

A empresa passou a ajustar o ponto e o horário de colheita, priorizando períodos mais frescos do dia. Também adotou climatização no galpão de recepção, reduziu o intervalo entre colheita e embarque, aplicou 1-MCP e adequou as temperaturas de resfriamento e transporte.

Mais de 90% das exportações da fruta têm origem no Vale do São Francisco e chegam à Europa, à Ásia e aos Estados Unidos. Foto: Arquivo Agrodan

Segundo Priscilla Dantas, gerente de packing house da empresa, o 1-MCP ajuda a conter o problema, mas acrescenta cerca de 12 horas ao período entre embalagem e expedição. Esse intervalo cria dificuldades para cumprir algumas janelas de embarque.

“Antes de entendermos melhor as causas do escurecimento de polpa e as formas de controlá-lo, a exportação da cultivar Keitt era cercada de incertezas quanto à qualidade que chegaria aos clientes. Pesquisas como essa permitiram desenvolver estratégias para reduzir o problema, preservar a qualidade dos frutos e diminuir as perdas pós-colheita. E assim, fortalecendo a competitividade e a confiabilidade da manga brasileira no mercado internacional”, ressalta.

Inteligência artificial tenta identificar mangas de maior risco

A Embrapa também desenvolve uma ferramenta para identificar lotes mais suscetíveis antes da exportação e do aparecimento dos sintomas.

Pesquisadores utilizam espectrômetros portáteis para analisar a luz visível e o infravermelho próximo (Vis-NIR). A partir desses dados, um algoritmo de aprendizado de máquina diferencia frutos saudáveis dos suscetíveis ainda durante a colheita.

Nos experimentos, a precisão ficou entre 80% e 90%.

“O equipamento funciona como um scanner. Ainda na colheita, antes do embarque, conseguimos detectar os lotes com maior risco. E com essa informação, o produtor pode decidir se mantém os frutos por mais tempo na planta, ajusta a temperatura de armazenamento e transporte ou utiliza atmosfera controlada, atmosfera modificada ou 1-MCP”, explica Tonetto.

A equipe agora trabalha para estimar não apenas a probabilidade de ocorrência do escurecimento, mas também a intensidade que o distúrbio poderá atingir em cada fruto e lote.

Outras pesquisas buscam aumentar a eficiência do 1-MCP e reduzir o tempo necessário para sua aplicação.