A semana terminou com um recado importante vindo da Bolsa de Chicago: o milho voltou a sentir o peso da oferta norte-americana. Um número acima do esperado para os estoques nos Estados Unidos provocou forte reação nas cotações e mudou o tom do mercado na entrada de outubro.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estimou os estoques de milho em 2,095 bilhões de bushels em 1º de setembro, alta de 35% em relação ao mesmo período do ano passado.
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O mercado esperava menos. Por isso, a reação foi rápida. Os contratos chegaram a perder cerca de 20 cents por bushel depois da divulgação do relatório.
Mais do que uma oscilação de uma sessão, o dado colocou uma questão importante sobre a mesa: os Estados Unidos começam a colheita com bastante milho disponível.
E isso pode continuar pesando sobre Chicago.
Milho começa outubro pressionado
A combinação não é confortável para os preços. De um lado, há um estoque maior do que o mercado projetava. Do outro, a colheita norte-americana avança e coloca mais milho em circulação.
Agora, o mercado precisa descobrir o tamanho real dessa oferta.
Nas próximas semanas, cada informação sobre produtividade terá peso. Se as lavouras confirmarem rendimentos elevados, Chicago poderá continuar enfrentando resistência para uma recuperação mais consistente.
Por outro lado, qualquer frustração relevante de produtividade pode mudar rapidamente essa percepção.
Para o produtor brasileiro, a queda em Chicago merece atenção, mas não deve ser observada isoladamente.
O preço do milho no Brasil também depende do dólar, dos prêmios de exportação, da demanda doméstica, do ritmo dos embarques e da disponibilidade regional. Portanto, a pressão internacional não necessariamente chega à fazenda brasileira na mesma intensidade.
Ainda assim, uma referência internacional enfraquecida reduz um dos possíveis pontos de sustentação das cotações domésticas.
Soja esbarra na China
Enquanto o milho recebeu uma notícia claramente negativa, a soja terminou a semana com sinais mais misturados.
Os estoques norte-americanos ficaram 3% abaixo do volume registrado um ano antes. Em condições normais, uma redução dessa magnitude ajudaria a sustentar as cotações.
O problema está do outro lado do mundo.
A China, maior compradora global de soja, está bem abastecida. Levantamento divulgado pela Reuters mostrou estoques de 7,96 milhões de toneladas em 111 esmagadoras chinesas, o maior nível em pelo menos 15 anos.
Além disso, margens apertadas de esmagamento reduzem o apetite das empresas por novas cargas.
Esse cenário interessa diretamente ao Brasil.
A soja brasileira continua ocupando espaço importante nas importações chinesas. Porém, existe uma diferença entre conquistar mercado dos Estados Unidos e encontrar uma China disposta a aumentar suas compras.
Se os compradores chineses puderem esperar, a disputa por preço tende a aumentar.
Trigo encontra algum suporte
O trigo seguiu por um caminho diferente.
Os estoques americanos ficaram em 1,85 bilhão de bushels, aproximadamente 14% abaixo do registrado no ano anterior.
Além disso, o USDA estimou a produção norte-americana de trigo em 1,53 bilhão de bushels em 2026, queda de 23% na comparação anual.
A redução da oferta ajuda a explicar por que o cereal encontrou fundamentos diferentes dos observados no milho.
Ao mesmo tempo, o trigo permanece particularmente sensível ao cenário internacional. Alterações na oferta dos grandes exportadores e problemas logísticos podem produzir movimentos rápidos nas cotações.
Agora, Chicago olha para a colheita
Passado o impacto dos estoques, a atenção muda de lugar.
A colheita dos Estados Unidos passa a fornecer as respostas que Chicago procura. Até aqui, boa parte das expectativas está baseada em projeções. A entrada das máquinas nas lavouras transforma estimativas em produção efetiva.
No milho, uma produtividade elevada reforçaria o cenário de oferta confortável. Na soja, além do desempenho das lavouras, o comportamento da China continuará decisivo.
O próximo WASDE, relatório mensal de oferta e demanda do USDA, também será acompanhado de perto.
A semana, portanto, deixou uma divisão bastante clara entre os principais grãos: milho pressionado pela oferta, soja dependente da demanda chinesa e trigo sustentado por uma disponibilidade americana menor.
Para o produtor brasileiro, entretanto, Chicago conta apenas parte da história. Dólar, prêmio, exportações, logística e oferta doméstica continuam determinando quanto desse movimento internacional efetivamente chega aos preços pagos no Brasil.