Embrapa lança cajueiro de alta produtividade desenvolvido especialmente para região litorânea. Edital para aquisição de mudas sai em janeiro de 2026.
Foto: Embrapa

A Embrapa Agroindústria Tropical apresenta em dezembro de 2025 o clone de cajueiro BRS 805, uma cultivar que promete transformar a cajucultura cearense. A nova variedade oferece produtividade duas vezes superior à cultivar CCP 76, atualmente a mais plantada no país. O edital para aquisição dos propágulos será publicado em 12 de janeiro de 2026.

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O desenvolvimento do BRS 805 começou no início dos anos 1990, segundo Dheyne Melo, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical e coordenador do Programa de Melhoramento Genético do Cajueiro. Pesquisadores selecionaram uma planta em experimento realizado em fazenda no município de Pio IX, no Piauí.

“As castanhas foram colhidas para produção de progênies. O experimento foi instalado no Campo Experimental de Pacajus, onde selecionamos uma das plantas filhas, identificada como PRO 805/4”, explica Melo. A equipe clonou essa planta para avaliação e comparação com outros materiais genéticos.

Desde 2003, o clone passou por avaliações em condições de sequeiro na região litorânea cearense. Os testes ocorreram em Pacajus, Cruz (a partir de 2011) e Itapipoca (desde 2015). Os resultados demonstraram desempenho superior e consolidaram o BRS 805 como alternativa de alta rentabilidade.

Produtividade alcança 1.800 kg de castanha por hectare

O BRS 805 alcança produtividade média de 1.800 quilos de castanhas por hectare entre o quinto e o sétimo ano de idade. Esse resultado representa o dobro da média obtida pelo clone CCP 76 no mesmo período.

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Foto: Embrapa

A produção anual de pedúnculo também impressiona: 23,8 toneladas por hectare, igualmente o dobro do clone testemunha. Para Melo, a alta produtividade se soma à maior segurança fitossanitária.

“O clone demonstra resistência ao mofo-preto, antracnose e septoria, enfermidades que prejudicam a cultura”, destaca o pesquisador.

Clone apresenta resistência superior a doenças comuns

Marlon Valentim, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical, observou que o BRS 805 tolera melhor o oídio quando comparado ao CCP 76. O oídio representa a pior doença da cajucultura brasileira.

Essas características resultam em menor necessidade de fungicidas, o que reduz custos de produção e oferece maior segurança alimentar ao consumidor.

Luiz Serrano, também pesquisador da Embrapa, recomenda maior espaçamento no cultivo. As plantas apresentam porte intermediário, atingindo entre 3 e 4 metros de altura e até 7 metros de envergadura.

O formato da copa, tipo taça compacta, torna o clone excelente para áreas mecanizadas. Tratores circulam livremente sem quebrar ramos produtivos das plantas.

Mercado receberá castanhas de alta qualidade industrial

O BRS 805 oferece produto de excelente aceitação no mercado de processamento. As castanhas apresentam massa média de 10 gramas, semelhante às do clone BRS 226, bem cotadas no mercado.

As amêndoas são classificadas como tipo LW ou W210 (entre 181 e 210 amêndoas por libra-peso), com rendimento industrial médio de 23,2%.

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Foto: Embrapa

O pedúnculo exibe coloração vermelha intensa e formato cônico (piramidal) de bom tamanho. O teor de Vitamina C é cinco vezes superior ao da laranja: 270 miligramas por 100 gramas de polpa. O produto é recomendado principalmente para processamento industrial.

Comercialização começa por edital público

A Embrapa direcionará o BRS 805 aos viveiristas de mudas de cajueiro com registro ativo no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem). O processo inicial de comercialização ocorrerá por edital de oferta pública, no qual a empresa licenciará propágulos do clone para os viveiristas selecionados.

“Sempre recomendamos que o produtor diversifique seu pomar. Caso novas doenças ou pragas cheguem, ele contará com clones mais resistentes ou tolerantes, evitando perda de produção”, afirma Melo.

Cajucultura enfrenta momento decisivo

José Roberto Vieira, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroindústria Tropical, aponta que a cajucultura passa por momento de inflexão.

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“Temos dois caminhos. O primeiro consiste em continuar no modelo semiextrativista, com baixa produtividade (menos de 500 quilos de castanha por ano), alta variabilidade genética, baixo rendimento de amêndoas e baixo aproveitamento de pedúnculo”, explica.

O segundo caminho envolve adotar tecnologias para alcançar o modelo de alto rendimento. “Nesse modelo, preconizamos produtividade de castanha superior a 1.500 quilos por hectare/ano, uniformidade de castanha, alto rendimento de amêndoas e alto aproveitamento de pedúnculo (superior a 50%)”, detalha Vieira.

Segundo o pesquisador, embora o investimento inicial seja maior, o valor se dilui com a produtividade por hectare. “O custo é menor por quilo de castanha produzida. Se incluirmos o pedúnculo nessa conta, em municípios como Severiano Melo e Apodi, no Rio Grande do Norte, o custo de produção cai ainda mais”, argumenta.

Ceará lidera produção nacional com crescimento de 61% em 2024

O Brasil produziu 161.014 toneladas de castanha de caju em 2024, o maior resultado desde 2018, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O crescimento em relação a 2023 foi de 38%.

O Ceará, maior produtor nacional, aumentou sua produção em 61%, passando de 63.256 toneladas para 101.930 toneladas. O Piauí, segundo colocado, registrou crescimento de 25%, saltando de 20.992 toneladas para 26.172 toneladas. O Rio Grande do Norte, terceiro lugar, produziu cerca de 21 mil toneladas nos últimos dois anos.

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O rendimento médio nacional, que calcula a produção de castanha em quilogramas por hectare, cresceu 30%. Em números absolutos, variou de 271 kg por hectare em 2023 para 358 kg por hectare em 2024.

Bela Cruz lidera a produção cearense de castanha em 2024, seguido de Beberibe, Ocara, Cascavel e Aracati. Todos os municípios se localizam em áreas litorâneas, as mesmas onde a Embrapa avaliou o BRS 805.

Programa de melhoramento oferece 14 clones para diferentes necessidades

O BRS 805 é o décimo quarto clone do Programa de Melhoramento Genético da Embrapa lançado no mercado. Cada clone possui características e destinações diferentes, atendendo demandas de produtores e indústrias, além de especificidades de clima e solo.

Os clones de cajueiro da Embrapa produzem com ou sem chuvas. Enquanto outras frutíferas necessitam de altas quantidades de água, o cajueiro produz com precipitação anual entre 600 e 800 milímetros. Em anos de elevados déficits hídricos, esses materiais genéticos se mantêm produtivos. O cajueiro também proporciona renda no período oposto ao da quadra invernosa, contribuindo para o desenvolvimento da classe média rural.

O CCP 76, um dos primeiros clones da Embrapa, é o mais plantado no Nordeste e no Brasil. Devido ao sabor agradável e qualidade do pedúnculo, é o preferido para produção de caju de mesa, com produtividade de 9.600 quilos de pedúnculo por hectare. O desempenho na produção de castanhas varia entre 600 kg (sem tratos culturais) e 1.200 quilos (com tratos culturais) por hectare.

Materiais genéticos selecionados em regiões extremamente secas do Semiárido suportam bem solos arenosos e ácidos. Entre esses clones destacam-se o BRS 226 e o Embrapa 51, que alcançam entre 1.200 e 2.000 quilos de castanhas por hectare em condições ideais de manejo.

Tanto o BRS 226 quanto o Embrapa 51 comprovaram resistência hídrica durante a grande seca da última década. Em tempos de urgência climática, essa vantagem é estratégica para a agricultura no Semiárido.