Resumo da notícia
- O mercado global de cacau inicia a safra 2026/27 com oferta reduzida e risco climático elevado, impulsionado pelo avanço do El Niño, que pode afetar as cotações internacionais.
- A África Ocidental, principal produtora, enfrenta riscos devido ao El Niño, com estimativas de produção revisadas para baixo em Costa do Marfim e Gana, reduzindo o superávit mundial.
- No Brasil, o mercado local é impactado pelas tendências internacionais, enquanto o El Niño provoca efeitos climáticos variados entre regiões, exigindo monitoramento específico nas lavouras.
O mercado mundial de cacau inicia a safra 2026/27 sob uma combinação de oferta mais apertada e maior risco climático. Nesse cenário, o avanço do El Niño coloca a África Ocidental no centro das atenções e pode sustentar as cotações internacionais.
O cenário climático ganhou força nas últimas semanas. O Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos como Inmet, Inpe e Cemaden, aponta probabilidade superior a 95% de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Além disso, as projeções indicam possibilidade de permanência do evento até o início de 2027.
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África Ocidental concentra a preocupação
A região reúne alguns dos principais fornecedores mundiais, sobretudo Costa do Marfim e Gana. Por isso, qualquer alteração relevante no regime de chuvas ou nas temperaturas pode afetar diretamente a disponibilidade da commodity.
Ao mesmo tempo, a nova temporada começou com uma margem de segurança menor. Estimativa divulgada recentemente pela StoneX reduziu o superávit mundial projetado para 2026/27 de 149 mil para apenas 25 mil toneladas. Para a Costa do Marfim, a previsão caiu para 1,775 milhão de toneladas, enquanto Gana aparece com estimativa de 585 mil toneladas.
Na prática, uma oferta menor deixa as negociações mais sensíveis a novas perdas. Assim, se as condições adversas prejudicarem a formação dos frutos ou reduzirem o rendimento nas principais áreas produtoras, a disponibilidade poderá ficar ainda mais limitada.
Clima volta ao centro das cotações
Os operadores já reagem às informações sobre a nova temporada. Em 2 de outubro, o contrato de cacau para dezembro na Bolsa de Nova York avançou 5,37%, para US$ 5.670 por tonelada. A movimentação ocorreu em meio ao aumento do preço pago aos produtores de Gana e às preocupações com os efeitos do El Niño sobre as lavouras.
Ainda assim, as condições atmosféricas não determinam sozinhas os valores. Os estoques certificados também cresceram, enquanto o consumo permanece sob acompanhamento. Dados divulgados no início de outubro apontaram mais de 3,5 milhões de sacas nos estoques certificados da ICE. Esse volume ajuda a limitar uma leitura de alta automática das cotações.
Brasil acompanha cenário internacional
Para o produtor brasileiro, o movimento externo importa porque o mercado de cacau mantém forte conexão com a indústria e com as negociações internacionais. Dessa forma, mudanças nos valores podem alterar a remuneração recebida no campo e influenciar as decisões de compra das empresas.
No país, entretanto, o El Niño não produz os mesmos efeitos em todas as regiões. O painel climático oficial prevê condições diferentes entre os estados brasileiros, com maior tendência de chuva no Sul e em parte do Sudeste e redução das precipitações em áreas do Norte e Nordeste entre outubro e dezembro.
Por esse motivo, cada região precisará acompanhar suas próprias condições. Nas lavouras, disponibilidade de água, temperaturas e ocorrência de doenças podem interferir no desenvolvimento das plantas durante o ciclo produtivo.
Oferta menor pode sustentar os preços
A principal preocupação está, portanto, na combinação entre uma margem menor de excedente e um cenário meteorológico potencialmente adverso. Quanto menor for a disponibilidade dos grandes fornecedores, maior tende a ser a sensibilidade das cotações diante de novas perdas ou interrupções no abastecimento.
Por outro lado, estoques elevados e uma demanda mais fraca podem limitar o avanço dos valores. O resultado dependerá do equilíbrio entre esses fatores nas próximas semanas, principalmente à medida que os números efetivos da safra 2026/27 substituírem as projeções atuais.
Assim, o mercado internacional começa um novo ciclo com as condições meteorológicas novamente no radar dos operadores. Para produtores e indústria, acompanhar a evolução do El Niño e os dados da temporada será fundamental para entender se a disponibilidade mundial conseguirá atender ao consumo sem ampliar a pressão sobre as cotações.