Resumo da notícia
- A primavera começa no Brasil em 22/09, com El Niño muito forte previsto, aumentando temperatura e riscos climáticos até o fim do ano, afetando agricultura e consumo.
- Calor eleva a demanda por cerveja em até 5%, mas temperaturas acima de 32°C podem reduzir esse efeito, gerando incertezas para o mercado em 2024.
- No campo, o excesso de chuva no Sul ameaça a cevada, principal matéria-prima para malte, com queda na qualidade das lavouras no Paraná, maior produtor nacional.
A primavera começa oficialmente no Brasil nesta terça-feira (22), às 21h05, sob a influência de um El Niño que pode atingir intensidade muito forte nos próximos meses. Segundo o terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em setembro, há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno chegar à categoria muito forte entre setembro e novembro. Além disso, a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) estima em 69% a chance de o episódio ser o mais intenso desde 1950.
Para a cadeia da cerveja, portanto, o cenário combina dois efeitos. De um lado, o calor costuma aumentar a procura por bebidas. Por outro, temperaturas extremas podem reduzir esse efeito. Ao mesmo tempo, o excesso de chuva no Sul aumenta o risco para a cevada, uma das principais matérias-primas utilizadas na produção de malte.
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Calor aumenta a demanda, mas existe um limite
Dados da Scanntech mostram que cada grau adicional de temperatura eleva, em média, 4,1% o volume de bebidas sensíveis ao clima. No caso da cerveja, o aumento chega a 5%.
Entretanto, esse efeito não cresce indefinidamente. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, da ETH Zurich e da Universidade Estadual da Carolina do Norte analisaram vendas no varejo dos Estados Unidos entre 2006 e 2023. O estudo mostrou que as vendas de bebidas alcoólicas aumentam com a temperatura até cerca de 32 °C. Depois disso, o efeito positivo diminui.
Ainda assim, não é possível afirmar que o mesmo comportamento ocorrerá no Brasil. Na teleconferência do segundo trimestre, em 30 de julho, o CEO da Ambev, Carlos Lisboa, afirmou que “o ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda”, mas destacou que “esses efeitos são imprevisíveis”.
Por isso, segundo Lisboa, “O que podemos fazer é nos prepararmos para enfrentarmos diferentes cenários climáticos”.
Cevada entra no centro da preocupação
No campo, porém, o risco aparece de forma mais direta. O Paraná concentra 84% da área brasileira de cevada e deve responder por 88,1% da produção nacional, segundo os dados citados no texto original com base na Conab.
Para 2026, os produtores paranaenses plantaram 130 mil hectares, área 23% superior à do ano anterior. A expansão ocorreu, inclusive, em um momento de aumento da demanda das maltarias.
Entretanto, o clima começou a pressionar as lavouras. A colheita teve início em agosto e alcançou 4% da área na semana passada, ritmo próximo ao registrado no mesmo período do ano anterior. Ainda assim, a parcela das lavouras classificadas como em boas condições caiu de 86% para 80% em apenas uma semana.
O engenheiro agrônomo Carlos Hugo Godinho, autor da análise de cevada do Departamento de Economia Rural (Deral), apontou o El Niño como principal fator de incerteza. Segundo ele, as chuvas já se destacaram durante o inverno, período historicamente mais seco no Paraná. Por isso, o cenário deixa menos margem para uma primavera favorável.
Além disso, o período mais importante da colheita ocorre em outubro e novembro. Justamente nesse intervalo, o Painel El Niño prevê chuvas acima da média na Região Sul. Como consequência, o excesso de umidade pode prejudicar a qualidade dos grãos.
Por enquanto, entretanto, o boletim não estima perdas. A colheita ainda está no início e, portanto, não há dados suficientes para dimensionar eventuais danos.
Volume de cevada não é o único problema
Nesse cenário, uma área maior não garante, sozinha, mais matéria-prima disponível para a indústria. Afinal, além do volume colhido, as cervejarias precisam de grãos com qualidade adequada para a produção de malte.
Essa diferença ganha peso porque o Brasil ainda depende de importações. Segundo dados apresentados por Jeferson Caus, da Cooperativa Agrária, no congresso Do Grão ao Gole, o país produziu 955 mil toneladas de malte em 2024, enquanto precisava de 1,93 milhão de toneladas.
Assim, uma safra de cevada prejudicada pelo excesso de umidade pode aumentar a pressão sobre uma cadeia que já não produz internamente todo o malte necessário.
Clima também pode elevar custos
Além da lavoura, outros pontos da cadeia podem sentir os efeitos do clima. Eventos extremos podem dificultar o transporte, afetar preços de commodities e elevar custos de insumos e energia.
Nesse contexto, a energia merece atenção porque a indústria cervejeira depende de refrigeração em diferentes etapas da cadeia. Em setembro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) manteve a bandeira amarela, com cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas podem aumentar a necessidade de refrigeração. Portanto, caso o calor avance junto com condições menos favoráveis para a geração de energia, os custos podem alcançar diferentes pontos da cadeia.
Por fim, o diretor de inteligência de mercado da Scanntech, Felipe Passarelli, destacou a necessidade de incorporar as condições climáticas ao planejamento do setor. Segundo ele, “Com um El Niño de intensidade elevada previsto para os próximos meses, o clima deixa de ser um imprevisto operacional e passa a ser uma premissa de planejamento”.