Resumo da notícia
- Pesquisadores da Unicamp e UFPR transformaram bagaço de uva em biofertilizante e aumentaram em mais de 250% a concentração de betacaroteno em flores comestíveis de calêndula-pôr-do-sol no cultivo de verão.
- O bagaço de uva, resíduo rico em fibras, açúcares, compostos fenólicos e antioxidantes, foi convertido em digestato por digestão anaeróbia, promovendo um biofertilizante líquido nutritivo para o cultivo de flores.
- Doses moderadas do biofertilizante e volume adequado de água foram essenciais para o desenvolvimento ideal das plantas, enquanto excessos prejudicaram o crescimento, destacando a importância do equilíbrio no uso do digestato.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) transformaram bagaço de uva em um biofertilizante e testaram o produto no cultivo da calêndula-pôr-do-sol (Calendula officinalis L.), uma flor comestível de interesse para as indústrias de alimentos e cosméticos. No cultivo de verão, o tratamento elevou em mais de 250% a concentração de betacaroteno, que chegou a 80,9 miligramas por 100 gramas de flor liofilizada, em comparação com o cultivo convencional sem o resíduo.
O bagaço representa entre 20% e 25% da massa da uva processada para a fabricação de vinho. Além disso, o resíduo reúne fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais. Por isso, os pesquisadores avaliaram seu potencial como insumo para o cultivo de flores comestíveis. Segundo Luiz Eduardo Nochi Castro, da FEA-Unicamp, a equipe escolheu o bagaço porque ele concentra diferentes substâncias de interesse.
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“Utilizamos o bagaço da uva porque ele é um dos principais resíduos da produção de vinho e ainda possui uma composição muito rica em substâncias de interesse, como fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais”
Bagaço de uva vira biofertilizante
Antes de aplicar o resíduo nas plantas, os pesquisadores transformaram o bagaço em digestato, um biofertilizante líquido rico em nutrientes. Para isso, utilizaram a digestão anaeróbia, processo no qual microrganismos decompõem a matéria orgânica sem a presença de oxigênio. Em 2023, a equipe realizou os testes durante o verão e o inverno, aplicando diferentes doses do biofertilizante e variando as condições de irrigação.
Depois da colheita, os pesquisadores liofilizaram as flores e analisaram sua composição. Além disso, avaliaram o desenvolvimento das plantas, incluindo a parte aérea, as folhas e as raízes. A equipe também realizou análises físico-químicas para comparar os resultados com o cultivo convencional.
“Além de caracterizar as flores, analisamos o desenvolvimento das plantas como um todo, incluindo a parte aérea, as folhas e as raízes. Também foram realizadas análises físico-químicas para verificar a qualidade das flores produzidas e comparar os resultados com os do cultivo convencional”
Dose do biofertilizante influencia os resultados
Os testes mostraram que tanto a quantidade de digestato quanto o volume de água influenciaram o desenvolvimento das plantas. Assim, doses moderadas apresentaram os melhores resultados, enquanto o excesso do composto prejudicou o crescimento.
“Verificamos que a quantidade do composto [digestato] e de água faz diferença. Doses moderadas proporcionaram os melhores resultados, enquanto quantidades excessivas tendiam a prejudicar o desenvolvimento das plantas. Isso mostra que o uso do digestato deve ser feito de forma equilibrada”
No verão, o tratamento elevou a concentração de betacaroteno para até 80,9 mg por 100 g de flor liofilizada, resultado mais de 250% superior ao cultivo convencional sem o resíduo. Além disso, o biofertilizante aumentou a concentração de compostos fenólicos e a atividade antioxidante. Já no inverno, os pesquisadores observaram ganhos na concentração de pigmentos e na retenção de minerais nas flores.
Pesquisa avalia próximos passos
Apesar dos resultados, a equipe ainda precisa avaliar a viabilidade técnica e econômica do uso do biofertilizante. Para isso, os pesquisadores pretendem analisar custos, logística e possibilidades de integração com vinícolas e empresas que utilizam a digestão anaeróbia.
Paralelamente, o grupo pesquisa formas de extrair e aproveitar outros compostos presentes no bagaço de uva, como açúcares, pigmentos, compostos fenólicos e antioxidantes. A estratégia pode ampliar o aproveitamento do resíduo em alimentos, cosméticos e produtos naturais.