Estudo da Unaerp em parceria com universidade canadense revela composto capaz de combater fungo e inflamação ao mesmo tempo
Substância derivada do açafrão-da-terra combate fungo e reduz inflamação
Foto: Martí Vicente/Frickr

Um estudo conduzido na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) revelou que um composto sintético derivado da curcumina, o princípio ativo da cúrcuma, ou açafrão-da-terra, combate o Trichophyton rubrum, fungo responsável pelas micoses mais comuns, por duas frentes distintas. Em parceria com a Universidade de Saskatchewan, no Canadá, os pesquisadores comprovaram que a molécula inibe o crescimento do patógeno e também ajuda a controlar a resposta inflamatória do organismo.

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O T. rubrum lidera as infecções superficiais de pele, pelos e unhas ao redor do mundo. Nos últimos anos, porém, a comunidade científica tem associado o microrganismo a doenças invasivas, principalmente entre pessoas imunocomprometidas e diabéticas.

“Nesses casos, os fungos podem ultrapassar a barreira cutânea, atingindo camadas mais profundas, incluindo a derme e a hipoderme, com potencial disseminação para os linfonodos e, em casos mais graves, para a corrente sanguínea”, explica Ana Lucia Fachin Saltoratto, pesquisadora da Unidade de Biotecnologia e professora do curso de Medicina, Farmácia e Nutrição da Unaerp, que coordenou o trabalho. A pesquisa recebeu apoio da FAPESP e saiu em junho na revista Current Fungal Infection Reports.

Resistência a antifúngicos impulsiona busca por novos tratamentos

Um dos fatores que dificultam a eliminação desse patógeno é a fraca resposta inflamatória que ele costuma provocar no organismo. O sistema de defesa do corpo reage de forma discreta diante da infecção. Some-se a isso o fato de que algumas linhagens do T. rubrum já resistem aos antifúngicos comerciais disponíveis atualmente.

Flor do açafrão
Flor Crocus sativus, de onde vem o açafrão. Foto: Redes Sociais

Esse cenário tem despertado interesse crescente no desenvolvimento de novos agentes de combate à infecção, sobretudo os formulados a partir de compostos naturais ou de seus derivados.

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Curcumina enfrenta limitações apesar do potencial

A curcumina desperta interesse científico há anos: estudos recentes atribuem à substância e a seus análogos um amplo espectro de atividades farmacológicas, entre elas efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, antimicrobianos e antifúngicos. A molécula também age em sinergia com antifúngicos clássicos e favorece a morte de diferentes espécies de fungos causadores de doenças.

A baixa solubilidade em água, a instabilidade química e a baixa biodisponibilidade da curcumina, no entanto, limitam sua aplicação clínica. Apenas uma pequena fração da substância chega efetivamente à circulação sanguínea e produz efeito no organismo. E mesmo em doses altas, a rápida degradação e eliminação comprometem sua eficácia terapêutica.

Molécula sintética supera limitações da curcumina natural

Diante desse obstáculo, os pesquisadores decidiram testar a ação antifúngica de moléculas sintéticas inspiradas na curcumina. A equipe aplicou os compostos em diversas concentrações sobre o fungo cultivado em laboratório, sob condições controladas.

A molécula batizada de 2102 apresentou o melhor desempenho entre os candidatos testados: uma concentração menor desse curcuminoide já foi suficiente para paralisar o crescimento do fungo.

Na etapa seguinte, o grupo testou o composto 2102 em cultura de macrófagos humanos, as células que formam a primeira linha de defesa do sistema imune. Os resultados indicaram que a substância não é tóxica e foi bem tolerada pelas células.

Os cientistas também simularam uma infecção profunda pelo T. rubrum. “Usamos uma linhagem celular de macrófagos humanos que permite estudar a interação entre o fungo e as células imunológicas presentes nesses tecidos”, detalha a pesquisadora.

Composto reduz inflamação e reforça defesa antifúngica

A equipe avaliou, então, a liberação de citocinas, substâncias secretadas pelos macrófagos que funcionam como mensageiros químicos e regulam a inflamação. A comparação envolveu macrófagos infectados sem tratamento (grupo-controle) e macrófagos infectados e tratados com o análogo da curcumina.

As células tratadas com o composto 2102 liberaram menos citocinas, sinal de efeito anti-inflamatório. E aumentaram a produção de substâncias oxidantes , a “munição” que as células de defesa usam para eliminar patógenos.

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Apesar dos resultados promissores, a substância ainda precisa passar por testes em animais e por ensaios de segurança em humanos antes de chegar à prática clínica. O próximo passo da equipe da Unaerp será sequenciar o material genético do T. rubrum a partir de amostras coletadas de pacientes infectados.

Por Thais Szegö | Agência FAPESP