Resumo da notícia
- Pesquisadores filmaram o peixe raro Scalicus engyceros caminhando para trás e de lado no fundo do Mar da China Meridional, comportamento nunca antes registrado em peixes.
- O peixe usa nadadeiras peitorais rígidas como pequenas pernas para se locomover sobre o sedimento, combinando equilíbrio e movimentos explosivos semelhantes a saltos de camarão.
- Essa descoberta, feita com veículos de mergulho profundo, revela adaptações surpreendentes da fauna marinha profunda e abre novas perspectivas sobre a locomoção em ambientes oceânicos inexplorados.
Um peixe raro do fundo do mar acaba de reescrever o que a ciência sabia sobre locomoção marinha. Pesquisadores da Sun Yat-sen University, na China, filmaram o Scalicus engyceros caminhando para trás e de lado sobre o leito oceânico. Um comportamento que nenhum outro peixe já demonstrou até hoje.
A equipe registrou as imagens no Mar da China Meridional usando veículos de mergulho profundo (HOVs e ROVs), tecnologias que permitem observar organismos em seu habitat natural, a centenas de metros de profundidade. O estudo, batizado de “Walking Fish”, saiu na revista Ocean-Land-Atmosphere Research.
Como o peixe consegue “andar” no fundo do mar
O Scalicus engyceros pertence à família dos peristediídeos, conhecidos como robalos-armados. A espécie carrega raios livres nas nadadeiras peitorais, estruturas rígidas que funcionam como pequenas pernas e sustentam o corpo sobre o sedimento marinho.
Han Tian, autor principal da pesquisa e doutorando na Escola de Ciências Marinhas da Sun Yat-sen University, descreveu a descoberta como “uma revelação que muda paradigmas”. Segundo ele, cientistas já suspeitavam que os robalos-armados usassem essas nadadeiras para se locomover, mas ninguém havia confirmado o movimento em vídeo. E muito menos o deslocamento lateral e para trás.
O “peixe-camarão” que intriga pesquisadores
O visual da criatura também chama atenção. Barbelas voltadas para fora, parecidas com um ancinho de jardineiro, projetam-se à frente da boca do animal. Essa estrutura atrapalha um pouco a caminhada, mas compensa: ela ajuda o peixe a sondar, cavar e localizar presas escondidas no sedimento.
A combinação de corpo alongado, olhos grandes — típicos de espécies de águas profundas — e aparência que lembra um crustáceo rendeu ao animal o apelido de “peixe-camarão híbrido” na imprensa internacional.
Comportamento nunca antes visto em peixes
Descrito pela primeira vez em 1872 pelo zoólogo Albert Günther, o Scalicus engyceros guardava esse segredo havia mais de 150 anos. Os pesquisadores notaram que, quando ameaçado, o animal também consegue disparar em fuga combinando movimentos bruscos das nadadeiras peitorais com impulsos da cauda — uma espécie de salto explosivo, similar ao de um camarão.
As nadadeiras peitorais, achatadas em formato de placas, cumprem ainda outra função: ajudam a manter o equilíbrio do corpo tanto durante a caminhada quanto na natação.
Por que a descoberta importa
O fundo do oceano profundo segue como um dos ambientes menos explorados do planeta. Avanços recentes em veículos de mergulho abriram uma janela inédita para observar comportamentos que amostras mortas em laboratório jamais revelariam.
A descoberta reforça como a fauna marinha profunda ainda esconde adaptações surpreendentes — e como novas tecnologias de imersão continuam reescrevendo o que os cientistas pensavam saber sobre a vida nas profundezas.