Mesmo com R$ 140 bilhões mobilizados pelo Eco Invest Brasil, recursos para recuperar terras degradadas seguem travados nos bancos
Produtor rural (Foto: Divulgação/Emater-MG)

O Eco Invest Brasil já mobilizou cerca de R$ 140 bilhões em quatro leilões, mas o volume ainda contrasta com a dificuldade enfrentada por pequenos e médios produtores para acessar o chamado crédito verde.

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Os principais entraves estão nos custos para estruturar os projetos, na exigência de garantias, na documentação financeira e ambiental e na necessidade de comprovar os resultados sustentáveis com dados que possam ser auditados.

O problema foi discutido nesta quinta-feira (3), durante a segunda edição do Sustainable Finance Summit, realizada em Goiânia. O encontro reuniu representantes do mercado financeiro, do setor produtivo e do poder público para debater o financiamento da transição para uma economia de baixo carbono.

Programa mobilizou R$ 140 bilhões

Criado em 2024, o Eco Invest Brasil utiliza recursos públicos para reduzir riscos e atrair capital privado, inclusive estrangeiro, para projetos sustentáveis.

O programa, ligado ao Ministério da Fazenda e conduzido pelo Tesouro Nacional, trabalha com financiamento combinado, proteção contra oscilações cambiais, crédito para operações de hedge e apoio à estruturação de projetos.

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No entanto, é válido ressaltar que os R$ 140 bilhões anunciados reúnem ecursos públicos e o capital privado mobilizado pelas instituições financeiras participantes dos leilões.

No primeiro leilão, realizado em outubro de 2024, foram mobilizados aproximadamente R$ 45 bilhões para projetos de transição energética, bioeconomia, economia circular e infraestrutura verde. Cerca de R$ 6,8 bilhões vieram de recursos públicos.

“Conseguimos levantar R$ 45 bilhões em investimentos com cerca de R$ 6,8 bilhões de dinheiro público”, afirmou Mário Gouvêa, integrante do Comitê Executivo do Eco Invest.

Segundo Gouvêa, aproximadamente R$ 40 bilhões dessa primeira rodada já teriam se convertido em investimentos. Entre os projetos estão biorrefinarias de etanol de milho e iniciativas de saneamento.

Recursos para recuperar terras degradadas ainda estão nos bancos

Na linha voltada à recuperação de terras degradadas, as instituições financeiras trabalham atualmente com a primeira parcela dos recursos, equivalente a 25% do total.

Os 75% restantes ainda precisam chegar aos bancos para que possam ser transformados em operações destinadas a produtores rurais e empresas.

O governo ofereceu recursos do Fundo Clima com juros de 1% ao ano, mas condicionou o acesso à participação do capital privado. Para cada parte de dinheiro público, as instituições financeiras deveriam acrescentar pelo menos cinco partes captadas no mercado.

O modelo é conhecido como blended finance, ou financiamento combinado. Na prática, uma fonte pública mais barata, mas limitada, é misturada ao dinheiro captado no mercado.

Por isso, a taxa final oferecida ao produtor não permanece necessariamente em 1% ao ano. A expectativa é que ela seja menor do que a encontrada em uma operação feita exclusivamente com recursos privados.

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Pequeno produtor enfrenta custo desproporcional

A estrutura que permite mobilizar bilhões também cria exigências difíceis de cumprir para quem opera em menor escala.

Para acessar os recursos, o produtor precisa transformar uma proposta ambiental em um projeto considerado financiável. Isso exige documentos, histórico financeiro e ambiental, garantias aceitas pelos bancos e indicadores capazes de demonstrar os resultados obtidos.

Uma grande empresa consegue contratar consultores, organizar a documentação e distribuir os custos do monitoramento em uma operação de valor elevado. Para um pequeno produtor, as mesmas despesas podem consumir uma parcela relevante do financiamento.

Outra barreira é a diferença entre a linguagem usada no campo e os critérios adotados pelos investidores. O produtor conhece o solo, a produção e os riscos da propriedade. O investidor, por sua vez, analisa risco de crédito, governança, retorno financeiro e indicadores ambientais.

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Projetos sustentáveis exigem retorno de longo prazo

O tempo de maturação dos projetos também interfere no acesso ao dinheiro. A recuperação de uma área degradada, por exemplo, pode levar anos até apresentar resultados econômicos e ambientais consistentes.

Para João Paulo Dutra, da Trius Capital, os investimentos destinados à agricultura regenerativa precisam considerar esse prazo mais longo.

Durante o evento, ele citou uma oferta de aproximadamente US$ 50 milhões feita por um investidor europeu interessado em projetos sustentáveis no Brasil. A proposta exigia governança clara, responsabilidades definidas e formas confiáveis de acompanhar os resultados.

“Mais do que falar de métrica, temos que qualificar o impacto. Ele precisa ser real, verificável, monitorável e prestar contas do dinheiro recebido”, afirmou Dutra.

Isso significa definir quem responde pelo projeto, quem acompanha os indicadores e como o impacto ambiental será demonstrado ao longo da operação.

Projeto ambiental ainda precisa ser traduzido para o mercado

Uma proposta capaz de melhorar o solo, recuperar uma área ou tornar a produção mais sustentável não se transforma automaticamente em uma operação financeira.

Segundo Luiz Lapo, diretor da Tudo Certo Agronegócios, existe uma distância entre a ideia ambiental e o projeto que atende às exigências de bancos e investidores.

“Eu diria que a palavra é tradução”, afirmou.

Essa tradução envolve transformar os conhecimentos e as necessidades do produtor em informações sobre custos, riscos, garantias, prazos e resultados ambientais mensuráveis.

Operações coletivas podem ampliar o acesso

Uma das alternativas apresentadas para alcançar produtores menores é reunir várias propriedades em uma mesma estrutura financeira.

Em vez de avaliar e acompanhar uma pequena operação de cada vez, fundos e securitizadoras podem formar carteiras com dezenas ou centenas de produtores. A escala ajuda a distribuir os custos de documentação, análise e monitoramento.

Entre os instrumentos que podem funcionar como ponte estão os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, conhecidos como Fiagros; os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs; e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio, os CRAs.

Esses mecanismos permitem reunir recebíveis, projetos e produtores em operações maiores, mais próximas da escala procurada por investidores.

“Hoje vemos muitas operações saindo, mas muito focadas nos grandes produtores. Estruturas de securitização por meio de Fiagros, FIDCs e operações de CRA são uma forma de fazer o recurso chegar ao médio e ao pequeno produtor”, afirmou Renato Barros, sócio e responsável pela área de agronegócio da Opea.

Quinto leilão pode elevar programa a R$ 200 bilhões

O quinto leilão do Eco Invest Brasil foi lançado em maio e ganhou regras detalhadas em julho. A nova rodada está voltada a projetos de inovação e cadeias consideradas estratégicas para a economia sustentável.

Na ocasião do lançamento, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o programa poderia se aproximar de R$ 200 bilhões mobilizados. O montante corresponderia a cerca de 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto, segundo a estimativa apresentada.

O crescimento do programa, porém, não elimina o desafio de fazer os recursos chegarem a quem produz em menor escala. Sem modelos que reduzam custos, organizem grupos de produtores e adaptem as exigências financeiras à realidade do campo, parte do crédito verde continuará concentrada nas grandes operações.