Resumo da notícia
- O INPI concedeu à Embrapa patente para tecnologia que usa lignina, resíduo da indústria de celulose, em formulações pesticidas de liberação controlada para soja e milho.
- A lignina encapsula pesticidas, liberando-os lentamente e protegendo contra radiação UV, reduzindo perdas e impactos ambientais dos defensivos sintéticos.
- Testes mostraram até 85% de redução da ferrugem-asiática na soja e 97% de controle da helmintosporiose no milho, superando fungicidas comerciais em eficácia e durabilidade.
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à Embrapa a patente nº BR 102024018669-9, oficializando uma tecnologia que pode mudar o manejo de pragas em lavouras de soja e milho. A invenção protege formulações pesticidas de liberação controlada desenvolvidas a partir da lignina, um polímero natural abundante na biodiversidade brasileira.
Os pesquisadores Silvio Vaz Júnior, da Embrapa Agroenergia, Ângelo Aparecido Barbosa Sussel, da Embrapa Cerrados, e a bolsista de pós-doutorado Flávia Augusta Dias Galarza assinam a inovação. A patente, expedida em 12 de maio de 2026, garante à Embrapa a propriedade da tecnologia por 20 anos, contados a partir de setembro de 2024.
Da fábrica de celulose para o campo
A matéria-prima da tecnologia é a lignina Kraft, coproduto da indústria de papel e celulose que normalmente vai para a queima em caldeiras. Ao transformar esse resíduo em suporte para defensivos, os pesquisadores inserem o material na lógica da economia circular e ampliam seu valor tecnológico.
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“O principal objetivo é reduzir os impactos ambientais causados pelos pesticidas sintéticos convencionais”, afirma Silvio Vaz Júnior. Nos métodos tradicionais de pulverização, perdas chegam a 30% por degradação imediata dos princípios ativos. O que leva agricultores a aumentar as doses e contaminar solos e recursos hídricos.
A lignina atua como matriz protetora: encapsula o pesticida e o libera de forma lenta e gradual nas lavouras. Ela também oferece proteção contra a radiação ultravioleta, que frequentemente degrada pesticidas quimicamente instáveis antes de cumprirem sua função.
Como a tecnologia funciona
Para viabilizar o encapsulamento, os pesquisadores submeteram a lignina a modificações químicas, gerando duas variantes: lignina Kraft acetilada (LKA) e lignina Kraft aminada (LKAM). Nos testes laboratoriais, essas versões atingiram índices de encapsulamento entre 80% e 100%.
As nanopartículas resultantes medem entre 150 e 300 nanômetros, tamanho que favorece a adesão e a absorção pelas plantas. Essa precisão em escala nanométrica garante que o princípio ativo chegue exatamente onde e quando o produtor precisa, com menos desperdício.
Resultados nos campos de soja e milho
Em lavouras de soja, o alvo dos testes foi a ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi), principal doença da cultura no Brasil. A formulação TBZ-LKA reduziu em até 84,85% o número de lesões causadas pelo fungo. Um desempenho comparável ao dos produtos líderes de mercado Tebufort® e Fox Xpro®.
No milho, os pesquisadores testaram o controle da helmintosporiose (Exserohilum turcicum). O destaque foi a formulação PTZ-LKA, que reduziu a incidência da doença em 97% na primeira avaliação. Mesmo 45 dias após a aplicação, sob condições climáticas favoráveis ao fungo, a tecnologia continuou protegendo as folhas, superando fungicidas comerciais em longevidade e redução de pústulas.
Além da eficácia prolongada, a análise comparativa mostrou que as formulações de lignina demandam menor massa de fungicida por hectare. “Reduzimos significativamente a carga tóxica lançada no ecossistema”, destaca Silvio.
Alinhamento com as metas globais de sustentabilidade
A patente se encaixa nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU — especificamente o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis). A tecnologia responde à demanda por “intensificação sustentável”: produzir mais alimentos sem ampliar o impacto ambiental.
O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de produção de celulose, o que garante oferta abundante e barata de lignina Kraft. Esse cenário torna a fabricação das nanoformulações economicamente viável e estrategicamente relevante para a indústria nacional de defensivos.









