Mais eficiente e sustentável, patente da Embrapa usa lignina para criar fungicida que protege lavouras por até 45 dias
pulverização milho
Foto: Adavilson Kronbauer/AGCO

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu à Embrapa a patente nº BR 102024018669-9, oficializando uma tecnologia que pode mudar o manejo de pragas em lavouras de soja e milho. A invenção protege formulações pesticidas de liberação controlada desenvolvidas a partir da lignina, um polímero natural abundante na biodiversidade brasileira.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Os pesquisadores Silvio Vaz Júnior, da Embrapa Agroenergia, Ângelo Aparecido Barbosa Sussel, da Embrapa Cerrados, e a bolsista de pós-doutorado Flávia Augusta Dias Galarza assinam a inovação. A patente, expedida em 12 de maio de 2026, garante à Embrapa a propriedade da tecnologia por 20 anos, contados a partir de setembro de 2024.

Da fábrica de celulose para o campo

A matéria-prima da tecnologia é a lignina Kraft, coproduto da indústria de papel e celulose que normalmente vai para a queima em caldeiras. Ao transformar esse resíduo em suporte para defensivos, os pesquisadores inserem o material na lógica da economia circular e ampliam seu valor tecnológico.

“O principal objetivo é reduzir os impactos ambientais causados pelos pesticidas sintéticos convencionais”, afirma Silvio Vaz Júnior. Nos métodos tradicionais de pulverização, perdas chegam a 30% por degradação imediata dos princípios ativos. O que leva agricultores a aumentar as doses e contaminar solos e recursos hídricos.

A lignina atua como matriz protetora: encapsula o pesticida e o libera de forma lenta e gradual nas lavouras. Ela também oferece proteção contra a radiação ultravioleta, que frequentemente degrada pesticidas quimicamente instáveis antes de cumprirem sua função.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Como a tecnologia funciona

Para viabilizar o encapsulamento, os pesquisadores submeteram a lignina a modificações químicas, gerando duas variantes: lignina Kraft acetilada (LKA) e lignina Kraft aminada (LKAM). Nos testes laboratoriais, essas versões atingiram índices de encapsulamento entre 80% e 100%.

As nanopartículas resultantes medem entre 150 e 300 nanômetros, tamanho que favorece a adesão e a absorção pelas plantas. Essa precisão em escala nanométrica garante que o princípio ativo chegue exatamente onde e quando o produtor precisa, com menos desperdício.

Resultados nos campos de soja e milho

Em lavouras de soja, o alvo dos testes foi a ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi), principal doença da cultura no Brasil. A formulação TBZ-LKA reduziu em até 84,85% o número de lesões causadas pelo fungo. Um desempenho comparável ao dos produtos líderes de mercado Tebufort® e Fox Xpro®.

No milho, os pesquisadores testaram o controle da helmintosporiose (Exserohilum turcicum). O destaque foi a formulação PTZ-LKA, que reduziu a incidência da doença em 97% na primeira avaliação. Mesmo 45 dias após a aplicação, sob condições climáticas favoráveis ao fungo, a tecnologia continuou protegendo as folhas, superando fungicidas comerciais em longevidade e redução de pústulas.

Além da eficácia prolongada, a análise comparativa mostrou que as formulações de lignina demandam menor massa de fungicida por hectare. “Reduzimos significativamente a carga tóxica lançada no ecossistema”, destaca Silvio.

Alinhamento com as metas globais de sustentabilidade

A patente se encaixa nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU — especificamente o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis). A tecnologia responde à demanda por “intensificação sustentável”: produzir mais alimentos sem ampliar o impacto ambiental.

O Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de produção de celulose, o que garante oferta abundante e barata de lignina Kraft. Esse cenário torna a fabricação das nanoformulações economicamente viável e estrategicamente relevante para a indústria nacional de defensivos.