Precipitações atrasam moagem no Centro-Sul, reduzem oferta e aumentam preocupação com açúcar e estoques de etanol nos próximos meses
Cana-de-açúcar destinada à produção de etanol e açúcar em usina brasileira
Foto: Embrapa - Gustavo Porpino

A chuva voltou a interferir diretamente na safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul. Desta vez, porém, o problema não termina na lavoura. A paralisação de atividades já reduz a oferta de etanol e começa a aparecer nos preços negociados pelas usinas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Entre 8 e 11 de setembro, o etanol hidratado subiu 2,63% nas usinas de São Paulo e chegou a R$ 2,4622 por litro. Já o anidro avançou 2,32%, para R$ 2,8475 por litro.

Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). Desde o fim de julho, a valorização do etanol nas usinas paulistas já supera 20%.

Chuva impede máquinas de entrar no campo

Colheita de cana-de-açúcar no Centro-Sul durante a safra 2026/27
Foto: Embrapa – Pedro Luiz de Freitas

A explicação começa antes de a cana chegar à indústria.

Com o solo molhado, as usinas enfrentam dificuldades para manter o ritmo de corte e transporte. Consequentemente, menos matéria-prima chega às unidades de processamento.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Além disso, o excesso de umidade pode prolongar o crescimento vegetativo da planta e atrasar sua maturação. Isso interfere no ATR, o Açúcar Total Recuperável, indicador fundamental para medir a quantidade de açúcar disponível na matéria-prima.

Assim, não é apenas o volume de cana que preocupa. A qualidade da matéria-prima também entrou no radar do setor. Estimativas de mercado divulgadas nesta semana apontam atraso superior a 20% no andamento da safra.

Etanol sente primeiro o efeito

No mercado de etanol, o reflexo apareceu rapidamente.

Segundo pesquisadores do Cepea, as chuvas interromperam atividades no campo e limitaram a disponibilidade do biocombustível. Ao mesmo tempo, compradores e vendedores passaram a acompanhar com maior atenção quanto de cana ainda poderá ser processado antes do encerramento da moagem.

Há uma razão para essa preocupação.

Quanto mais a moagem se estende, maior fica a incerteza sobre a quantidade de etanol disponível nos estoques durante os meses seguintes.

Por isso, a previsão de novas precipitações em áreas produtoras de São Paulo, Minas Gerais e Paraná ganha importância para o mercado.

Açúcar também entra no radar

A chuva pode provocar outro efeito dentro das usinas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Quando a cana apresenta menor concentração de ATR e condições menos favoráveis à fabricação de açúcar, a indústria pode encontrar dificuldades no processo de cristalização. Nesse cenário, parte da matéria-prima pode acabar direcionada para a produção de etanol.

A discussão ganha força porque o mercado já trabalha com uma oferta mais apertada de açúcar.

Nesta semana, o Itaú BBA reduziu sua estimativa para a produção de açúcar do Centro-Sul em 2026/27 para 38,9 milhões de toneladas, 400 mil toneladas abaixo da projeção anterior.

A instituição também passou a projetar déficit mundial de 2,1 milhões de toneladas na temporada.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Brasil tem uma safra gigantesca

Canavial brasileiro após chuvas que atrasaram a colheita e a moagem de cana
Foto: Embrapa

O tamanho da cadeia ajuda a dimensionar o impacto.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acompanha oficialmente a safra brasileira 2026/27. O Centro-Sul concentra a maior parte da produção nacional e, portanto, qualquer interrupção prolongada nessa região pode alterar o ritmo de processamento brasileiro.

No primeiro levantamento da temporada, por exemplo, a Conab projetava 459,1 milhões de toneladas de cana somente para o Sudeste, alta de 6,8% em relação à temporada anterior.

Portanto, poucos dias de paralisação envolvem volumes expressivos de matéria-prima.

Chuva pode chegar ao preço na bomba?

Para o consumidor, entretanto, existe uma diferença importante.

A alta do etanol na usina não significa um reajuste automático na mesma proporção nos postos. Distribuição, estoques, impostos, margem de comercialização e condições regionais também interferem no preço final.

Ainda assim, acompanhar o valor negociado pelas usinas ajuda a identificar mudanças na oferta antes que elas eventualmente apareçam no varejo.

O Agro em Campo identifica, portanto, uma sequência que merece atenção: a chuva interrompe a colheita, reduz o ritmo de moagem, limita momentaneamente a oferta e aumenta a preocupação com os estoques.

Se as precipitações persistirem, a discussão deixa de ser apenas sobre quando as máquinas voltarão ao campo. O mercado passará a observar também quanto de cana ainda será possível processar, quanto açúcar será produzido e qual volume de etanol chegará aos próximos meses.