Com probabilidade acima de 90% de ocorrência a partir de setembro, o fenômeno climático pressiona exportações, eleva preços e exige planejamento financeiro e jurídico no campo
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O El Niño de 2026 já preocupa especialistas antes mesmo de se instalar. Classificado como um dos mais intensos da história recente, o fenômeno não representa apenas uma ameaça climática. Ele configura um vetor de risco econômico capaz de pressionar a inflação, comprometer exportações e abalar as finanças de produtores rurais em todo o país.

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Dados da NOAA, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), do INPE e da Embrapa apontam probabilidade superior a 90% de formação do El Niño a partir de setembro. Os impactos regionais já estão mapeados: o Sul do Brasil deve receber chuvas acima da média, com risco de enchentes e doenças fúngicas nas lavouras; o Norte e o Nordeste enfrentarão estiagens severas, queda nos níveis dos rios e risco elevado de incêndios florestais; o Centro-Oeste sofrerá com ondas de calor e baixa umidade, comprometendo pastagens; e o Sudeste terá temperaturas elevadas e chuvas irregulares, prejudicando culturas como café e cana-de-açúcar.

Agronegócio na linha de frente

O setor agropecuário concentra os maiores riscos. A soja e o milho sofrerão perdas regionais que reduzem a oferta e pressionam as exportações. O excesso de chuvas compromete a colheita e a qualidade do trigo. O café e a cana perdem produtividade sob calor intenso e precipitações irregulares. Na pecuária, o ressecamento das pastagens eleva os custos de suplementação alimentar e, em cascata, encarece a carne e o leite para o consumidor final.

O histórico reforça a gravidade do cenário. Em anos de El Niño, a inflação alimentar registrou índices quase duas vezes superiores aos de períodos sem o fenômeno. Em 2026, os preços de frutas, legumes e hortaliças podem subir até 15%. Carnes e laticínios também devem encarecer, corroendo o poder de compra das famílias brasileiras.

Junior Rozante, CEO do grupo RZ3. Foto: DIvulgação

“O El Niño de 2026 não é apenas um fenômeno climático: é um divisor de águas para a economia brasileira. Seus impactos exigem políticas públicas robustas, investimentos em infraestrutura e energia, além de estratégias empresariais de adaptação”, afirma Júnior Rozante, CEO da RZ3 Consultoria. Para ele, o Brasil precisa transformar vulnerabilidade em oportunidade para garantir resiliência diante do desafio.

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Os reflexos chegam também ao campo fiscal. A redução da arrecadação nos setores produtivos afetados, as pressões por incentivos ao agronegócio e à energia, e a inflação elevada, que aumenta a arrecadação nominal mas corrói o poder de compra, formam um triângulo de tensão para o governo federal. Por outro lado, o cenário estimula a busca por ativos defensivos, como commodities e energia renovável, e aquece o mercado de seguros agrícolas.

Proteção jurídica e financeira: o que os produtores precisam fazer agora

Diante da iminência do fenômeno, especialistas pedem que os produtores rurais, especialmente no Sul do Brasil, adotem medidas preventivas antes que os efeitos se agravem. A orientação vai além do campo: envolve organização documental, revisão contratual e planejamento bancário.

“Os eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção. Hoje, o produtor precisa compreender que gestão de risco também passa por organização documental, análise contratual e planejamento bancário. Quem se antecipa consegue ter mais segurança para renegociar operações e preservar sua atividade”, afirma Giulia Arndt, advogada especialista em Direito Bancário aplicado ao agronegócio do escritório Maffioletti & Arndt Advogados.

Advogada Giulia Arndt, especialista em Direito Bancário aplicado ao agronegócio. Foto: Divulgação

Entre as medidas mais urgentes, Giulia destaca a revisão das operações de crédito rural, sobretudo em contratos vinculados à produtividade futura. Laudos agronômicos, registros climáticos e comprovações de perdas formam um conjunto documental essencial para pedidos de renegociação ou alongamento de dívida junto às instituições financeiras.

Direito do produtor

A legislação e a jurisprudência reconhecem o direito do produtor ao alongamento das dívidas quando uma frustração de safra decorre de fatores climáticos. Ainda assim, muitos agricultores desconhecem esses mecanismos. Ou só os buscam quando a situação financeira já se deteriorou. “O problema é que muitos agricultores desconhecem esses mecanismos ou buscam auxílio apenas quando a situação financeira já está agravada”, reforça a advogada.

A análise preventiva dos seguros rurais e das cláusulas contratuais bancárias também figura entre as prioridades. Compreender quais eventos estão cobertos e quais obrigações as instituições financeiras podem exigir evita conflitos futuros e reduz a vulnerabilidade do produtor em períodos de crise.

Para Giulia, a resposta ao El Niño exige também articulação coletiva. “O agronegócio brasileiro é extremamente dependente de previsibilidade. Quando há instabilidade climática recorrente, é fundamental que existam mecanismos jurídicos e financeiros capazes de garantir fôlego ao produtor para atravessar esses períodos sem comprometer toda a cadeia econômica”, conclui.

Portanto, a mensagem dos especialistas é clara: o momento de agir é agora. Antes que as nuvens cheguem.