Pesquisadores apontam desvalorização do animal no campo e demanda internacional pela pele como motores do crescimento nos embarques
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Reprodução: Proteção Animal Mundial.

O Piauí enviou cerca de 3,5 mil jumentos para abate em frigoríficos da Bahia entre janeiro e agosto. Segundo a Agência de Defesa Agropecuária do Estado (Adapi), esse volume já supera em quase três vezes o total registrado em todo o ano anterior.

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Pesquisadores explicam esse salto pela maior demanda internacional pela pele do animal. No mercado asiático, cada pele pode valer até R$ 4 mil. Portanto, o valor da pele hoje supera de longe o preço do jumento vivo no Brasil e é justamente essa diferença que movimenta os embarques.

Além disso, a Adapi aponta Marcos Parente, no Sul do Piauí, como o município que concentra a maior parte dos animais destinados ao abate. Com cerca de 4,5 mil habitantes, a cidade fica na mesorregião Sudoeste Piauiense, região que reúne boa parte dessa atividade. Ali, compradores reúnem os jumentos em uma propriedade rural até o momento do embarque. Ainda assim, o estado não tem propriedades voltadas à criação do animal para esse fim, nem projeção de quantos jumentos ainda serão enviados até o fim do ano.

Mecanização tirou valor do jumento

Durante décadas, o jumento exerceu papel central no transporte e no trabalho agrícola. Com a chegada da mecanização, porém, o animal perdeu espaço no campo e passou a ser visto, em muitas regiões, como um bicho sem utilidade econômica.

Como consequência, o preço despencou. “Essa baixa utilização, junto com a proliferação desordenada, faz com que eles sejam comercializados por valores muito baixos”, explica Raniel Lustosa, professor e doutor em ciência animal.

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Diante desse cenário, Patrícia Tatemoto, pós-doutoranda no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e consultora do The Donkey Sanctuary, vai além: para ela, essa desvalorização transformou a atividade em algo essencialmente extrativista. Ou seja, em vez de investir em criação, o mercado passou a depender da captura e da venda de animais que já existem soltos no campo.

Reprodução lenta impede criação em escala

Enquanto isso, a biologia do animal reforça esse quadro. A gestação do jumento dura cerca de 12 meses e, depois do nascimento, o animal ainda leva mais 18 meses até atingir idade adequada para o abate. Ao todo, portanto, somam-se cerca de dois anos e meio entre a reprodução e a chegada do jumento ao frigorífico.

Por causa desse prazo longo, a criação comercial não consegue substituir o extrativismo. Afinal, manter um jumento por tanto tempo, sem garantia de retorno financeiro no fim do ciclo, torna a atividade pouco atrativa para produtores. Assim, em vez de criar o animal, compradores preferem capturar e reunir exemplares já existentes no campo até o momento do embarque.

“Não existe valorização comercial desses animais. Ninguém produz em fazendas, porque leva anos e a gestação é longa. Custa caro. Por isso a atividade se mantém extrativista”, conclui Tatemoto.