Pesquisa na Austrália mostra que composto produzido com restos de alimentos e resíduos de jardins melhora sabor, aroma e aparência do tomate após o armazenamento
O estudo comparou tomates cultivados com e sem composto orgânico produzido a partir de resíduos de alimentos e de jardins.
Foto: The University of Queensland

O segredo para produzir tomates mais doces pode estar justamente no que muitas famílias jogam fora todos os dias.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriram que o uso de composto produzido com restos de alimentos e resíduos de jardins pode melhorar o sabor dos tomates cultivados comercialmente.

Nos testes, os tomates que receberam o composto apresentaram características diferentes depois de passar pelo armazenamento. Eles foram duas vezes mais associados ao sabor doce que os tomates cultivados sem o produto.

Além disso, análises químicas encontraram maior presença de componentes relacionados aos açúcares e menor quantidade de ácido málico, substância que pode contribuir para a acidez do fruto.

O estudo também identificou diferenças no aroma e até na aparência percebida pelos consumidores.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Os pesquisadores publicaram os resultados na revista científica npj Science of Food.

Cientistas testaram tomates produzidos na fazenda

Plantação de tomates
Foto: The University of Queensland

A equipe da School of Agriculture and Food Sustainability conduziu o experimento no sudeste de Queensland.

Os pesquisadores dividiram o cultivo em dois grupos.

Em uma parte da área, eles incorporaram ao solo um composto conhecido na Austrália pela sigla FOGO, de Food Organics and Garden Organics. O produto utiliza resíduos orgânicos de alimentos e jardins recolhidos de residências e empresas.

A outra parte da plantação não recebeu o composto.

Fora essa diferença, os pesquisadores mantiveram as mesmas condições comerciais de cultivo, colheita, transporte e armazenamento para os dois grupos.

A pesquisadora Nicole Robinson explicou que trabalhos anteriores já haviam analisado os possíveis efeitos desse tipo de composto sobre a produtividade. Entretanto, faltava entender o que acontecia com a experiência do consumidor.

“Estudos anteriores analisaram, por exemplo, o impacto do composto FOGO na produtividade das culturas, mas não consideraram as preferências dos consumidores em relação ao sabor, aparência e cheiro”, afirmou Robinson em declaração publicada pela Universidade de Queensland.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Por isso, a equipe decidiu colocar os tomates também à prova diante dos consumidores.

Voluntários provaram os tomates sem saber a origem

Teste às cegas de tomates durante pesquisa.
Foto: The University of Queensland

Os cientistas realizaram testes às cegas no laboratório de análise sensorial de alimentos da universidade.

Os voluntários observaram, cheiraram e provaram tomates dos dois grupos sem saber qual método de cultivo havia sido usado.

Primeiro, eles fizeram a avaliação cinco dias depois da colheita.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Posteriormente, repetiram o teste após mais uma semana de armazenamento.

Esse intervalo teve um objetivo. Segundo Robinson, ele procurou reproduzir parte do caminho que o tomate percorre entre a fazenda, o supermercado e a mesa do consumidor.

Na primeira avaliação, os dois grupos receberam classificações semelhantes.

Depois do período adicional de armazenamento, porém, surgiu uma diferença importante.

“Na segunda rodada, os tomates com FOGO tinham duas vezes mais chances de serem identificados como doces do que os tomates do grupo de controle, que foram descritos como sem graça”, afirmou Robinson à Universidade de Queensland.

Os participantes também associaram os tomates cultivados com o composto a uma aparência melhor e a um cheiro mais agradável.

Já os tomates convencionais receberam com maior frequência descrições como pálidos e com pouco aroma.

Análise encontrou diferenças nos açúcares

Imagem de tomates produzidos por cientistas durante estudos.
Foto: The University of Queensland

A percepção dos voluntários não ficou restrita ao paladar.

Os pesquisadores também fizeram análises químicas dos frutos.

Os resultados apontaram maior concentração de componentes relacionados aos açúcares nos tomates cultivados com o composto orgânico.

Ao mesmo tempo, esses frutos apresentaram menos ácido málico. Esse ácido participa da formação do sabor e pode aumentar a percepção de acidez.

Além disso, após o armazenamento, os cientistas encontraram ainda níveis maiores de aminoácidos relacionados ao sabor conhecido como umami.

Portanto, as diferenças percebidas durante a degustação também apareceram nas análises realizadas em laboratório.

Produção não aumentou

Um detalhe do estudo chama atenção.

O composto não provocou diferença perceptível na produtividade, no tamanho ou na aparência dos tomates no momento da colheita.

A vantagem apareceu principalmente depois que os frutos passaram pelo período de armazenamento.

Isso pode ter importância comercial, já que tomates produzidos em grande escala normalmente passam dias entre colheita, transporte, distribuição, supermercado e consumo.

“Embora não tenha ocorrido diferença perceptível na produtividade ou no tamanho e aparência dos tomates na colheita, as análises química e sensorial mostram que o FOGO pode dar ao produtor uma vantagem”, afirmou Robinson na publicação da universidade.

Essa vantagem estaria relacionada a um produto com melhor sabor e aparência quando chega ao consumidor.

Restos de comida voltam para agricultura

Além do resultado sobre o sabor, a pesquisa aponta uma possível utilização para resíduos que normalmente representam um problema ambiental.

O composto usado no experimento veio de um fornecedor comercial que aproveita materiais descartados por residências e empresas.

Restos de frutas, verduras, alimentos e resíduos de jardins podem passar por compostagem e retornar ao solo como matéria orgânica.

Com isso, parte desse material deixa de seguir para aterros sanitários.

“Manter resíduos orgânicos fora dos aterros, onde eles geram gases de efeito estufa, e usá-los para cultivar alimentos melhores é uma vitória para o meio ambiente e para nós”, afirmou Robinson.

A estratégia também está alinhada aos esforços australianos para reduzir o desperdício de alimentos.

Resultado pode interessar ao produtor

O experimento não significa que qualquer composto doméstico deixará tomates automaticamente mais doces.

Os pesquisadores utilizaram um produto comercial, preparado de forma controlada, e conduziram o cultivo dentro de condições específicas.

Solo, variedade, clima, manejo, composição do material orgânico e processo de compostagem podem interferir nos resultados.

Ainda assim, a pesquisa acrescenta um novo elemento à discussão sobre o aproveitamento de resíduos na agricultura.

Normalmente, o uso de compostos orgânicos chama atenção pelos possíveis benefícios ao solo, pela reciclagem de nutrientes e pela redução de resíduos.

Agora, os cientistas encontraram outra possibilidade: o manejo do solo também pode influenciar a experiência de quem come o alimento dias depois da colheita.

No caso dos tomates australianos, aquilo que começou como resto de comida voltou para a cadeia alimentar ajudando a produzir um fruto que os consumidores perceberam como mais doce.