Vinhaça, dejetos animais e outros resíduos orgânicos têm potencial para virar combustível renovável e ampliar as alternativas ao diesel no Brasil
caminhão rodovia
Foto de ALE SAT na Unsplash

O biometano produzido a partir de resíduos agropecuários e agroindustriais pode ampliar as alternativas ao diesel no transporte pesado, segundo o estudo From Waste to Wheels: Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, encomendado pelo Instituto MBCBrasil.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O levantamento analisa o potencial do combustível na transição energética e, ao mesmo tempo, mostra as condições brasileiras para ampliar sua produção.

Resíduos da cana têm grande potencial

O Brasil possui grande disponibilidade de resíduos agropecuários, agroindustriais e urbanos para produzir biometano. Nesse cenário, o setor sucroenergético aparece entre os que apresentam maior potencial. Na safra 2024/25, cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar foram processadas no país, gerando aproximadamente 380 bilhões de litros de vinhaça.

A indústria pode utilizar parte desse resíduo para produzir biogás por meio da biodigestão e, posteriormente, transformá-lo em biometano. Dessa forma, além de destinar a vinhaça, o setor pode gerar uma fonte renovável de energia.

Biometano pode substituir parte do diesel

Além disso, os veículos movidos a gás natural podem utilizar o biometano, o que permite aproveitar parte das tecnologias e da infraestrutura já existentes. O combustível também pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa, além de diminuir a emissão de material particulado e outros poluentes em comparação com o diesel. Entretanto, os resultados dependem da tecnologia dos veículos e dos sistemas de controle de emissões.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Da mesma forma, o benefício climático varia conforme a matéria-prima e o processo de produção. Em determinadas rotas analisadas pelo estudo, o biometano apresentou potencial para reduzir em mais de 80% as emissões de gases de efeito estufa. No caso dos dejetos animais, o resultado pode ser ainda mais favorável em algumas condições, porque a biodigestão evita parte das emissões de metano que ocorreriam no armazenamento convencional.

Proximidade de gasodutos favorece projetos

Por outro lado, a disponibilidade de resíduos não garante, sozinha, a viabilidade dos projetos. A infraestrutura de transporte e distribuição também pesa nessa equação. Segundo o estudo, cerca de 60 usinas paulistas estão a até 20 quilômetros de um gasoduto. Essa proximidade pode facilitar a conexão das unidades produtoras e, consequentemente, reduzir custos de infraestrutura.

Além disso, o levantamento cita projetos desenvolvidos por empresas como Cocal, Raízen e São Martinho como exemplos do avanço do biometano no setor sucroenergético. Apesar disso, a infraestrutura ainda representa um dos principais desafios para ampliar a produção e o consumo do combustível.

Regulação amplia espaço para o combustível

Ao mesmo tempo, o Brasil avançou na regulamentação do setor. A Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano. A legislação também estabeleceu o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB).

Mais recentemente, em 2026, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou normas relacionadas à emissão do CGOB e à individualização das metas anuais para produtores e importadores de gás natural.

Assim, a combinação entre matéria-prima disponível, infraestrutura e avanços regulatórios amplia o espaço do biometano na descarbonização do transporte pesado. Para o agronegócio, o combustível cria uma possibilidade adicional de aproveitamento de resíduos que já fazem parte das atividades produtivas. Ainda assim, cada projeto depende da escala de produção, da tecnologia utilizada, da localização e do acesso à infraestrutura.