Pesquisa da Embrapa avaliou duas safras e mostrou que a polinização por abelhas aumentou o número e o peso dos grãos em uma variedade tradicional cultivada no Rio de Janeiro
arroz anã
Foto: Cristina Takeiti/Embrapa.

As abelhas aumentaram em 26% a quantidade de grãos do Arroz Anã de Porto Marinho, segundo estudo da Embrapa Agrobiologia. Além disso, a presença dos insetos elevou em 41% o peso dos grãos cheios, na comparação com plantas que receberam apenas a ação do vento. A pesquisa acompanhou o cultivo durante as safras de 2024 e 2025, em propriedades de Porto Marinho, distrito rural de Cantagalo, no noroeste do Rio de Janeiro. Nesse período, a equipe buscou medir quanto a polinização realizada pelas abelhas contribui para a produção da variedade tradicional.

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arroz anã
O peso dos grãos cheios saltou 41% graças à ação dos polinizadores – Foto: Cristina Takeiti/Embrapa.

Embora o arroz seja conhecido pela capacidade de realizar a autopolinização, os pesquisadores encontraram um cenário diferente em Porto Marinho. Isso ocorre porque, durante o florescimento, o vento apresenta baixa velocidade na região. Assim, as abelhas podem assumir uma participação maior na transferência de pólen entre as flores.

Experimento comparou três condições

Para medir essa contribuição, os pesquisadores realizaram experimentos de exclusão das abelhas em 15 propriedades produtoras do Arroz Anã. A equipe avaliou cinco propriedades em 2024 e outras dez em 2025. Em cada propriedade, os pesquisadores selecionaram cinco panículas no início do florescimento e, em seguida, distribuíram as estruturas entre três tratamentos, com 15 panículas avaliadas por propriedade.

saco organza
Foto: Cristina Takeiti/Embrapa.

Primeiro, os pesquisadores utilizaram sacos de organza para bloquear a entrada das abelhas e também a ação do vento. Dessa forma, as flores ficaram sujeitas apenas à autopolinização. Depois, a equipe usou sacos de tule para impedir a visita das abelhas, mas permitir a passagem do vento. Com isso, os pesquisadores conseguiram avaliar a anemofilia, nome dado à polinização realizada pelo vento. Por fim, a equipe manteve outras panículas expostas à visita dos insetos. A partir dessa comparação, os pesquisadores calcularam a contribuição das abelhas para a formação dos grãos.

“Por comparação entre os tratamentos, foi possível mensurar o efeito dos polinizadores e calcular o efetivo serviço ecossistêmico“, explica a pesquisadora da Embrapa Mariella Uzêda. Além disso, Uzêda afirma que o ganho observado acompanha resultados de pesquisas realizadas com outras culturas que dependem de polinizadores, como canola, trigo-sarraceno, coentro e algodão.

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Abelhas formam comunidade diversa na lavoura

A equipe também investigou quais abelhas frequentaram as áreas de cultivo e identificou cinco espécies ou grupos: Exomalopsis sp., Trigona spinipes, Augochlorella sp., Augochloropsis sp. e Apis mellifera. Entre elas, a Apis mellifera apareceu em 100% das áreas monitoradas. Já a

 ocorreu em 80% das propriedades, enquanto a Exomalopsis sp. apareceu em 40%.

Cinco espécies de abelhas associadas ao cultivo do Arroz Anã foram identificadas

Cinco espécies de abelhas associadas ao cultivo do Arroz Anã foram identificadas – Foto: Cristina Takeiti/Embrapa.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores fizeram amostragem ativa com aspirador entomológico em cinco propriedades. As coletas ocorreram entre 8h e 11h, período de maior atividade das abelhas durante o florescimento do arroz. Segundo Uzêda, os resultados mostram que diferentes grupos de abelhas participam da polinização no sistema estudado.

“Isso demonstra que o sistema agroecológico estudado sustenta uma comunidade diversa, com grupos complementares: grandes generalistas que promovem a polinização cruzada entre plantas distantes e pequenas abelhas solitárias, que realizam a deposição precisa de pólen”, afirma.

Calor extremo aumentou o desafio em 2025

Além da baixa velocidade do vento, os pesquisadores observaram outro fator que pode aumentar a importância das abelhas: o estresse térmico durante a floração. Na safra de 2025, a região enfrentou seca severa e calor extremo durante o período de florescimento. Nesse cenário, a velocidade com que os polinizadores transportam o pólen pode fazer diferença para a formação dos grãos.

Segundo Uzêda, estudos indicam que a temperatura diurna crítica para a formação do grão fica em aproximadamente 37,2°C. Acima desse limite, o calor reduz a fertilidade e prejudica a viabilidade do pólen. “Assim, a velocidade e a sincronia da ação dos polinizadores bióticos tornam-se cruciais para a resiliência do sistema produtivo”, conclui a pesquisadora.

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Entretanto, o estudo apresenta uma limitação. A equipe não comparou diretamente o sistema agroecológico com áreas de cultivo convencional. Portanto, os pesquisadores conseguem afirmar que as abelhas contribuíram significativamente para a produção nas condições a

valiadas, mas não podem atribuir exclusivamente ao sistema agroecológico os ganhos registrados.

Pesquisa integra pedido de Denominação de Origem

Além dos resultados sobre a polinização, o estudo também integra o conjunto de evidências utilizado no pedido de Indicação Geográfica (IG) por Denominação de Origem (DO) do Arroz Anã de Porto Marinho. A Associação de Produtores Rurais, Pescadores, Artesãos, Moradores e Amigos de Porto Marinho e Entorno (Apomar) depositou o pedido no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 8 de agosto de 2026.

Nesse contexto, as pesquisas ajudam a documentar a relação entre o arroz e as condições específicas de produção da região. O estudo sobre as abelhas acrescenta, portanto, uma evidência científica sobre como o ambiente de Porto Marinho pode influenciar a produtividade da variedade. Ao mesmo tempo, os resultados não indicam que as abelhas sejam o único fator responsável pela produção. A própria pesquisa considera condições específicas, como a variedade crioula, o manejo agroecológico, a ausência de agrotóxicos e as baixas velocidades do vento durante o florescimento.

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