Resumo da notícia
- Produtores paraenses de cacau fino já fabricam chocolates com teores entre 56% e 90%, bem acima do mínimo de 35% estabelecido pela nova legislação federal.
- A lei deve aumentar a demanda por amêndoas de cacau do Pará, beneficiando pequenos produtores que cultivam cacau agroflorestal livre de agrotóxicos.
- A indústria nacional precisará reformular seus produtos para atender à nova regra, enquanto consumidores mostram preferência crescente por chocolates com maior teor de cacau.
O Pará produz chocolate com teor de cacau que vai de 56% a 90%. Isso é bem acima do mínimo de 35% que o Governo Federal acaba de tornar obrigatório para o setor. A nova legislação, que também fixa 25% como piso para o chocolate ao leite, chega tarde para os produtores paraenses, mas abre uma janela de oportunidade: com a indústria obrigada a usar mais cacau, a demanda por amêndoas da região deve crescer.

Durante o Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, realizado pelo Governo do Estado no final de abril, o público degustou produtos com teores entre 40% e 90% de cacau. Ou seja, uma vitrine da produção local que contrasta com o padrão industrial que a lei agora pretende combater.
Fábrica familiar produz acima do exigido
A Da Cruz Chocolate, única fábrica do segmento na Região Metropolitana de Belém, fica no bairro do Atalaia, em Ananindeua. O chocolateiro e agrônomo Flávio Cruz afirma que o produto com menor percentual de cacau que a empresa fabrica chega a 56%. Para ele, a nova lei beneficia tanto o produtor quanto o consumidor.
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O filho Samuel Cruz, responsável pela área comercial e pelas visitas guiadas à fábrica, diz que a legislação muda pouco na rotina deles. “O chocolate de verdade tem propriedades importantes para a saúde. Chocolate não é só porcentagem. É origem, é terroir, é fermentação bem feita, é respeito ao produtor e sabor real”, afirma.
Ao lado da fábrica, a família mantém uma área de cultivo de cacau livre de agrotóxicos e enriquecida com espécies florestais nativas. A diretora-geral Chiara Cruz explica que a maior parte da amêndoa vem de produtores externos que adotam os mesmos critérios. “Compramos de produtores que tratam a amêndoa da forma como a gente trabalha”, diz.
Estado já colhe prêmios internacionais
O secretário de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz, lembra que o cacau paraense cultivado em sistema agroflorestal já rendeu ao estado premiações nacionais e internacionais. Ele destaca que o principal impacto da lei para o Pará não está nas exigências de fabricação, que os produtores locais já cumprem. Mas no aumento da demanda por amêndoas.
“A legislação trouxe boas expectativas aos produtores do Pará. Quanto maior o consumo, maior a participação no lucro do chocolate vendido. Isso favorece o consumidor e o pequeno produtor”, observa. O secretário também aponta uma mudança no perfil do consumidor: “Muita gente hoje opta por chocolates com percentuais entre 40% e 80%. Essa legislação é boa para quem produz e para quem consome.”
Indústria terá que reformular produtos
Para o professor Jesus Nazareno Souza, coordenador do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), da UFPA, a lei atinge principalmente a grande indústria, não os chocolateiros artesanais, que já trabalham com chocolate fino. “A indústria vai ter que usar mais cacau. E não vai ter mais aquele negócio de ‘sabor chocolate’: terão que colocar cacau de verdade para poder usar o nome”, ressalta.
O engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, coordenador do Procacau da Sedap e do Festival Internacional do Chocolate e do Cacau, reforça a avaliação. “A legislação beneficia o produtor de amêndoa, pois quem fabrica chocolate terá que comprar mais para garantir os 35% mínimos. Isso beneficia muito o produtor paraense e o brasileiro como um todo”, diz. Santana é direto ao apontar o alvo real da lei: “Essa legislação só serve para aquelas grandes marcas que usam pouco chocolate nos seus produtos. O nosso chocolate artesanal produzido no Pará nunca usou menos de 35%.”








