Gigante dos alimentos amplia abastecimento no Brasil enquanto produção se recupera; país trabalha com cenário de 400 mil toneladas em cinco anos
Frutos de cacau brasileiro em diferentes estágios de maturação no cacaueiro
Foto: Embrapa - Cláudio Bezerrra Melo

O cacau brasileiro voltou ao radar de uma das maiores fabricantes de chocolate do mundo. A Nestlé está aumentando suas compras no Brasil e trabalhando diretamente com produtores para ampliar produtividade, melhorar a qualidade das amêndoas e reduzir a dependência de fertilizantes convencionais.

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O movimento acontece depois dos choques de oferta que levaram o cacau a preços históricos no mercado internacional. Diante desse cenário, a companhia passou a buscar maior diversificação das regiões fornecedoras.

A África Ocidental continua como principal origem mundial da matéria-prima. O Brasil, porém, começa a ganhar espaço nessa estratégia.

A Nestlé já mantém relacionamento com centenas de propriedades brasileiras, onde desenvolve iniciativas relacionadas à agricultura regenerativa e produtividade. Ao mesmo tempo, a estratégia procura reduzir custos diante do encarecimento dos insumos agrícolas.

Brasil quer chegar a 400 mil toneladas

Frutos de cacau brasileiro colhidos em área de produção rural
Foto: Embrapa – Ronaldo Rosa

A movimentação da indústria acontece justamente quando a cacauicultura brasileira tenta recuperar uma posição que já ocupou no mercado internacional.

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O país trabalha com a perspectiva de a produção nacional alcançar cerca de 400 mil toneladas nos próximos cinco anos.

O desafio é grande. Dados oficiais mostram que o Brasil produziu 287,8 mil toneladas em 2024. Para alcançar a marca de 400 mil toneladas, considerando essa base, seria necessário acrescentar aproximadamente 112 mil toneladas, avanço próximo de 39%.

Há, no entanto, sinais recentes de recuperação.

No primeiro semestre de 2026, as indústrias receberam 95,1 mil toneladas de amêndoas, crescimento de 63,4% sobre igual período de 2025, segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

Pará e Bahia dominam a produção

O levantamento do Agro em Campo mostra também uma transformação na geografia do cacau brasileiro.

Em 2024, o Pará produziu 153,9 mil toneladas, equivalente a 53,5% da produção nacional. A Bahia apareceu em seguida, com 111,3 mil toneladas e participação de 38,7%.

Espírito Santo e Rondônia completaram o grupo dos principais produtores.

Estado Produção em 2024
Pará 153,9 mil t
Bahia 111,3 mil t
Espírito Santo 12,2 mil t
Rondônia 8,7 mil t
Brasil 287,8 mil t

Fonte: levantamento Agro em Campo com dados oficiais do setor.

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A Bahia, por sua vez, mostra reação. Para 2026, a estimativa estadual baseada em dados do IBGE aponta 137 mil toneladas, crescimento de 15,4% sobre 2025.

Brasil já foi potência do cacau

A história ajuda a explicar por que esse movimento chama atenção.

O Brasil já esteve entre os grandes produtores mundiais de cacau. Depois, a vassoura-de-bruxa atingiu duramente as plantações e derrubou a produção, principalmente na Bahia.

Agora, novas áreas produtoras, materiais mais resistentes e sistemas de cultivo mais tecnológicos ajudam a reconstruir a atividade.

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Os preços elevados dos últimos anos também estimularam novos investimentos. O cultivo começa, inclusive, a avançar para áreas onde antes tinha pouca presença.

Mesmo com uma eventual produção de 400 mil toneladas, porém, o Brasil ainda permaneceria distante dos maiores produtores mundiais.

Brasil pode voltar a exportar mais?

O Agro em Campo explica: produzir 400 mil toneladas abriria espaço para o Brasil aumentar sua presença no mercado internacional, mas isso não significa que todo o volume adicional seria exportado.

Há uma característica importante nessa conta. O Brasil não apenas produz cacau. O país também possui uma indústria relevante de processamento e fabricação de chocolates.

Em 2025, por exemplo, a indústria brasileira moeu 195,9 mil toneladas de cacau, segundo a AIPC. O volume recuou 14,6% em relação ao ano anterior, em um cenário de matéria-prima cara e menor demanda por derivados.

Por isso, uma produção de 400 mil toneladas poderia atender tanto ao crescimento das exportações quanto ao abastecimento da indústria instalada no próprio país.

Existe ainda o fator tempo. O aumento da produção de cacau depende de novas áreas, produtividade e maturação das plantas. Portanto, a transformação não acontece de uma safra para outra.

Ainda assim, o aumento das compras da Nestlé reforça um movimento que já começa a aparecer nos números.

Depois de décadas reconstruindo uma atividade duramente atingida pela vassoura-de-bruxa, o Brasil volta a ganhar espaço na disputa pelo cacau que abastece a indústria mundial de chocolate.