Resumo da notícia
- A Nestlé amplia compras de cacau no Brasil para diversificar fornecedores, aumentar produtividade e reduzir uso de fertilizantes, diante da alta global nos preços do cacau.
- O Brasil busca recuperar mercado com meta de 400 mil toneladas em cinco anos, partindo das 287,8 mil toneladas produzidas em 2024, impulsionado por crescimento significativo na Bahia e Pará.
- Pará lidera produção nacional com 53,5%, seguido pela Bahia com 38,7%; avanços em tecnologias e áreas resistentes ajudam a superar crise causada pela vassoura-de-bruxa.
O cacau brasileiro voltou ao radar de uma das maiores fabricantes de chocolate do mundo. A Nestlé está aumentando suas compras no Brasil e trabalhando diretamente com produtores para ampliar produtividade, melhorar a qualidade das amêndoas e reduzir a dependência de fertilizantes convencionais.
O movimento acontece depois dos choques de oferta que levaram o cacau a preços históricos no mercado internacional. Diante desse cenário, a companhia passou a buscar maior diversificação das regiões fornecedoras.
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A África Ocidental continua como principal origem mundial da matéria-prima. O Brasil, porém, começa a ganhar espaço nessa estratégia.
A Nestlé já mantém relacionamento com centenas de propriedades brasileiras, onde desenvolve iniciativas relacionadas à agricultura regenerativa e produtividade. Ao mesmo tempo, a estratégia procura reduzir custos diante do encarecimento dos insumos agrícolas.
Brasil quer chegar a 400 mil toneladas

A movimentação da indústria acontece justamente quando a cacauicultura brasileira tenta recuperar uma posição que já ocupou no mercado internacional.
O país trabalha com a perspectiva de a produção nacional alcançar cerca de 400 mil toneladas nos próximos cinco anos.
O desafio é grande. Dados oficiais mostram que o Brasil produziu 287,8 mil toneladas em 2024. Para alcançar a marca de 400 mil toneladas, considerando essa base, seria necessário acrescentar aproximadamente 112 mil toneladas, avanço próximo de 39%.
Há, no entanto, sinais recentes de recuperação.
No primeiro semestre de 2026, as indústrias receberam 95,1 mil toneladas de amêndoas, crescimento de 63,4% sobre igual período de 2025, segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Pará e Bahia dominam a produção
O levantamento do Agro em Campo mostra também uma transformação na geografia do cacau brasileiro.
Em 2024, o Pará produziu 153,9 mil toneladas, equivalente a 53,5% da produção nacional. A Bahia apareceu em seguida, com 111,3 mil toneladas e participação de 38,7%.
Espírito Santo e Rondônia completaram o grupo dos principais produtores.
| Estado | Produção em 2024 |
|---|---|
| Pará | 153,9 mil t |
| Bahia | 111,3 mil t |
| Espírito Santo | 12,2 mil t |
| Rondônia | 8,7 mil t |
| Brasil | 287,8 mil t |
Fonte: levantamento Agro em Campo com dados oficiais do setor.
A Bahia, por sua vez, mostra reação. Para 2026, a estimativa estadual baseada em dados do IBGE aponta 137 mil toneladas, crescimento de 15,4% sobre 2025.
Brasil já foi potência do cacau
A história ajuda a explicar por que esse movimento chama atenção.
O Brasil já esteve entre os grandes produtores mundiais de cacau. Depois, a vassoura-de-bruxa atingiu duramente as plantações e derrubou a produção, principalmente na Bahia.
Agora, novas áreas produtoras, materiais mais resistentes e sistemas de cultivo mais tecnológicos ajudam a reconstruir a atividade.
Os preços elevados dos últimos anos também estimularam novos investimentos. O cultivo começa, inclusive, a avançar para áreas onde antes tinha pouca presença.
Mesmo com uma eventual produção de 400 mil toneladas, porém, o Brasil ainda permaneceria distante dos maiores produtores mundiais.
Brasil pode voltar a exportar mais?
O Agro em Campo explica: produzir 400 mil toneladas abriria espaço para o Brasil aumentar sua presença no mercado internacional, mas isso não significa que todo o volume adicional seria exportado.
Há uma característica importante nessa conta. O Brasil não apenas produz cacau. O país também possui uma indústria relevante de processamento e fabricação de chocolates.
Em 2025, por exemplo, a indústria brasileira moeu 195,9 mil toneladas de cacau, segundo a AIPC. O volume recuou 14,6% em relação ao ano anterior, em um cenário de matéria-prima cara e menor demanda por derivados.
Por isso, uma produção de 400 mil toneladas poderia atender tanto ao crescimento das exportações quanto ao abastecimento da indústria instalada no próprio país.
Existe ainda o fator tempo. O aumento da produção de cacau depende de novas áreas, produtividade e maturação das plantas. Portanto, a transformação não acontece de uma safra para outra.
Ainda assim, o aumento das compras da Nestlé reforça um movimento que já começa a aparecer nos números.
Depois de décadas reconstruindo uma atividade duramente atingida pela vassoura-de-bruxa, o Brasil volta a ganhar espaço na disputa pelo cacau que abastece a indústria mundial de chocolate.